Renato Teixeira

” É de laço e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

Sobre o meu cavalo

É de laço é de nó

De gibeira o jiló

Dessa vida, cumprida a sol

Sou caipira pirapora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

o meu pai foi peão

Minha mãe solidão

Meus irmãos

Perderam- se na vida

A custa de aventuras

Descasei, joguei

Investi, desisti

Se há sorte

Eu não sei

Nunca vi

Me disseram porém

Que eu viesse aqui

Prá pedir de romaria e prece

Paz nos desaventos

Como eu não sei rezar

Só queria mostrar

Meu olhar, meu olhar,

Meu olhar…

Renato Teixeira, Romaria

Fonte: Musixmatch

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. deborando

Santarém, 29 de Julho de 2020

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que os mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros. O apanhador de desperdícios.

culturafm.cmmais.com.br

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. Dean Crouser Fine Art

Santarém, 29 de Julho de 2020

Manoel de Barros

Manoel de Barros é considerado como um dos maiores poetas brasileiros. Nascido aos 19 de março de 1916, em Cuiabá (MT), onde passou parte de sua infância . Aos 13 de anos, mudou-se para Campo Grande. Anos depois, ele foi estudar no Rio de Janeiro, onde formou-se em Direito.

Engana -se quem pensa que o seu primeiro livro tenha sido de poesia. Na verdade, o primeiro livro de Manoel surgiu por conta de uma confusão com a polícia, quando ele ainda vivia no Rio de Janeiro. Tudo teria ocorrido por conta de uma pichação que Manoel teria feito numa estátua, onde dizia ” Viva o Comunismo “. Em meio a confusão, a polícia foi na pensão que Manoel morava para prendê-lo. A dona do estabelecimento pediu para que não o prendesse ele, pois era uma pessoa de boa índole, inclusive havia escrito um livro chamado ” Nossa Senhora de minha escuridão. Havendo a sensibilização do policial por conta da história, Manoel não foi preso, porém o livro fora.

Embora a vida de Manoel tenha sido toda voltada a poesia, afirma -se que, o primeiro trabalho só teria sido escrito por volta dos seus 19 anos.

Apesar de ter vários trabalhos, ele só passou ter reconhecimento a partir da década de 1980. Daí por diante, Manoel ganhou vários prêmios, dentre eles, o Jabuti. Em 1987, surge ” O guardador de águas”. Com grande destaque, teve trabalhos publicados em Portugal. Manoel também é um escritor brasileiro com reconhecimento na Espanha e na França.

A poesia de Manoel é surrealista. Outra característica bastante comum em seu trabalho é o uso do vocabulário coloquial rural. Manoel trabalha muita a questão da natureza, como por exemplo:

” Remexo com um pedacinho de arame nas minhas memórias fósseis

Tem por lá um menino a brincar no terreiro

entre conchas, osso de arara, sabugo

O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo…

O menino hoje é um douto que trata com física quântica.

Mas tem nostalgia das latas.

Tem saudades de puxar por um barbante sujo uma latas tristes.

Aos parentes que ficaram na aldeia esse homem

encomendou uma árvore forte…

para caber nos seus passarinhos.

De tarde os passarinhos fazemárvore nele”.

( Fragmento 14, do Livro para encantar o azul eu uso pássaros. Apud Bravo! Junho 1998)

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar. São Paulo, 2013

Se você desejar conhecer mais sobre a poesia de 1930 – 1940, pesquise mais sobre o trabalho de Manoel de Barros e toda a sua contribuição para a literatura brasileira. É um encanto!..

Marii Freire Pereira

Imagem: Marlene Bergamo/ Folhapress. Página Manoel de Barros/ Facebook.

Santarém, 29 de Julho de 2020

VEM comigo!

Somos fragmentos da matéria…

O ímpeto generoso…

Passando, passando…suavemente da realidade

Para ganhar os olhos da imaginação.

Sublinhamos o silêncio

Talvez, ele a consciência dos nossos gemidos.

Olhamos para o céu,

Olhamos para o alto, escutando a própria memória,

Observando nos vultos da imaginação

As alucinações, que por vezes, vem nos povoa. Isto é, revestir de humanidade.

Quantas cores bonitas pousam em nossas janelas!

Chegam sempre silenciosas,

Outras, divertidas…

Sublimes,

Algumas carregadas de uma brisa suave,

Já outras, parecem festejos

Não pedem licença: entram e saem,

Não param em lugar algum.

Algumas pousam, chegam trazendo sempre um pouco de esperança,

Nos fazendo condensar… o tempo!

“Dormimos a beleza daquilo que sonhamos!…”

O tempo é um senhor generoso

Ele diz a nossa velha memória

Que a nossa carruagem passa sempre a meia noite…

É o destino de todos nós!

Ímpeto e generoso,

Ele é permissivo,

Mas

Recebe sempre os dividendos.

Sabe ser camarada e fronteiriço

Quando chega o seu tempo, não adianta correr,

Choram ou discutir suas cláusulas.

Com o tempo não se discute. Faz-se um acordo:

Vive sem tormenta.

Sem sofrer

Sem morrer…

Sem o que nos sobrecarrega.

A vida segue,

Contemplamos

A paisagem vista pela janela

A vida se amontoa dessa maneira.

Crescemos portanto, com as nossas sensações primitivas,

Mas

Com o coração grato por tecer

Com fios de ouro aquilo que chamamos de vida.

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. Lolkitu

Santarém, Pá 29 de Julho de 2020

Chico Buarque & Gilberto Gil

” É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar

É sempre bom lembrar

Que o ar sombrio de um rosto

Está cheio de um ar vazio

Vazio daquilo que no ar do copo

Ocupa um lugar

É sempre bom lembrar

Guardar de cor que o vazio

De um rosto sombrio está cheio de dor

É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar…”

Chico Buarque e Gilberto Gil, Copo Vazio

Composição: Gilberto Gil.

Fonte: Musixmatch

Imagem ” Copo Vazio ” Google

Santarém, Pá 28 de Julho de 2020

Olavo Bilac

” Como uma procissão espectral que se move…

Dobra o sino..soluça um verso de Dirceu…

Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove…”

Olavo Bilac. Vila Rica. ( Melhores poemas de Olavo Bilac, cit, p.105) Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar. São Paulo, 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. Renata Pereira/ Ouro Preto. Minas Gerais

Santarém, Pá 28 de Julho de 2020

Clarles Aznavour

Ela pode ser o rosto que não consigo esquecer

Um traço de prazer ou de arrependimento

Talvez meu tesouro ou

o preço que eu tenho que pagar

Ela pode ser a música que o verão canta

Talvez o frescor que o outono traz

Talvez uma centena de coisas diferentes

No espaço de um dia

Ela pode ser a bela ou a fera

Talvez fome ou fartura

Pode transformar cada dia em um paraíso ou em

um inferno

Ela pode ser o espelho do meu sonho

O sorriso refletido no rio

Ela pode não ser o que parece ser

Dentro de sua concha

Ela, que sempre parece tão feliz no meio da multidão

Com os olhos tão pessoais e tão orgulhosos

Mas que não podem ser vistos

Quando choram

Pode ser o amor que não espera que dure

Pode vir das sombras do passado

Que eu irei me lembrar até o dia de minha morte

Ela talvez seja o motivo para eu sobreviver

A razão pela qual eu estou vivo

A pessoa que cuidarei através

Dos difíceis e imediatos anos

Eu, eu pegarei as risadas e as lágrimas dela

E farei delas todas minhas recordações

Para onde ela for, eu tenho que estar lá

O sentido da minha vida é ela, ela, ela, ela

Clarles Aznavour. She

Composição: Charles Aznavour/ Herbert/ krek

https:// m.letras.mus.br

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: c7nema.net

Santarém, Pá 28 de Julho de 2020

Carlos Drummond de Andrade

” Carrego comigo

há dezenas de anos

há centenas de anos

o pequeno embrulho.

Serão duas cartas?

será uma flor?

será um retrato?

um lenço talvez?

Já não me recordo

onde o encontrei.

Se foi um presente

ou se foi furtado.

Se os anjos desceram

trazendo- o nas mãos,

se boiava no rio,

se pairava no ar.

Não ouso entreabri- lo.

Que coisa contém,

ou se algo contém,

nunca saberei.

Como poderia

tentar esse gesto?

O embrulho é tão frio

e também tão quente.

Ele arde nas mãos,

é doce ao meu tato.

Pronto me fascina

e me deixa triste.

Guardar um segredo

em si e consigo,

não querer sabê- lo

ou querer demais…”

Carlos Drummond de Andrade. Carrego comigo. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. São Paulo, 1945

VEM comigo!

Imagem: Marii Freire

Santarém, Pá 28 de Julho de 2020

Fim de relacionamento: por que algumas se recusam a compreender?

Nós seres humanos, assim como alguns animais temos a mania de marcar territórios. Nós temos essa necessidade de domínio, seja entre povos, navegações, e no amor, não poderia ser diferente. Quando você ama uma pessoa, existe a necessidade de querer mostrar a todos que você tem alguém especial. De repente, se começa querer andar de mãos dadas, postar fotos juntos, ir a locais públicos, ou seja, você passar a ” assumir”, a relação com a pessoa que escolheu. Ao fazer esse compromisso em público, é como se estivesse dizendo, ” esse território me pertence “. É um “pertencimento emocional”. Na verdade, quando você gostar, faz questão dividir com as outras pessoas o quanto ela , te faz bem.

A idéia é essa mesmo, é mostrar aos curiosos que a pessoa que você escolheu, agora faz parte da sua vida. Todavia, ao me referir a palavra ” domínio “, não estou falando de ” pertenca”. Veja, ao gostarmos de alguém, fala-se em amor, carinho e respeito. Nos damos ao outro através dessa maneira. É na doação genuína que falamos o quanto admiramos a quem se ama. Aqui, o domínio não se trata de poder, mas de oferecer a quem amamos algo de valor, é no sentido autêntico da palavra.

. Quem ama cuida.

. Quem sempre tenta se aperfeiçoar para ganhar a admiração do outro.

. Corre atrás

. Evita atritos para poder desfrutar dessa relação com muito mais qualidade.

O domínio neste caso, não é trabalhado no lado negativo da relação. Aqui, não se trata de quem é o mais forte. Mas do que quanto se agregar, seja na forma de doação, cuidado e carinho.

Quem ama tem uma facilidade enorme de identificar essa questão. Às vezes, pode ocorrer a idéia que esvazia tudo isso, como inclusive acontece em muitas relação.

O homem faz um grande feito no início, ele impressiona a mulher, mostra aos amigos, mas perde o interesse – ou ela, a mulher perde a graça quando surge o interesse de conquistar o novo. Nesse caso, o homem geralmente não sai diferente da forma que entra. Ele vai querer muitas vezes, que essa mulher supostamente ” advinhe ” que ele não quer mais. Eu acredito que todas vêem quando isso acontece, mas se recusam em – vão – aceitar o fim do relacionamento. Geralmente, o homem diz que não tempo, ou está focado no trabalho, inventa qualquer desculpa para a mulher. E por outro lado, ela fica permitindo essas desculpas, ou seja, age assim por não querer aceitar a verdade. Muitas inclusive, precisam ouvir um ‘sonoro não’ para acreditar no término. Mas enquanto isso, vivem se desconstruindo dentro de si, por conta do óbvio. Parece que essas mulheres vivem de camadas superficiais, mesmo com um fardo nos ombros. Elas choram, e não entendem porque perderam.

[…]

Cadê o animal extraordinário de outrora? Infelizmente, todo fim é doloroso. Mas, depende de não dificultar essas horas. O melhor é permitir, abrir mão desse domínio emocional, e superar que é a parte mais dura. Porém, assertiva, pois isso permite que a vida possa ser refeita novamente com o que resta-lhes dos sonhos.

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. i.pinimg.com

Santarém, Pá 28 de Julho de 2020

Clarice Lispector

Já chamei pessoas próximas de ” amigo” e descobri que não eram…Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão espaciais para mim. Não me deem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir o meu coração! Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente! Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão. Sou sempre a mesma, mas com certeza não serei a mesma para SEMPRE!

Clarice Lispector.

Pensador.com

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. Clarice Lispector – A Magia – da Poesia

Santarém, Pá 28 de Julho de 2020