” […] não posso outra coisa, tenho que seguir com ele: somos do mesmo lugar, comi do seu pão, lhe quero bem, é agradecido, me deu os seus jericos, e por cima de tudo eu sou fiel, e por isso é impossível que nos possa separar outra coisa que não seja pá da terra. E se vossa altanaria não quiser que se me dê o prometido governo, de menos me fez Deus, e pode ser que o não receber redunde em prol de minha consciência, pois apesar de tolo bem entendo aquele ditado que diz ” por seu mal nasceram asas à formiga”, e até pode ser que mais asinha chegue ao céu o Sancho escudeiro que o Sancho governador. ( DQ, 2, XXXIII, 2007, 411)
Maria Augusta da Costa: Cervantes: Dom Quixote e Sancho pança- Fragmentos de uma Aprendizagem Deletiva
“Vejo-te entre sedas, frágil, trêmula. Minha gota de orvalho”.
Marii Freire Pereira.
Que interessante seria se a história da mulher em nossa sociedade fosse vista como lemos nessas expressões poéticas, afetuosas que você nota que tem uma certa profundidade. Mas, na prática, vemos que elas se arrastam entre risos e lágrimas.
Em todo tempo, a história da mulher em nossa sociedade, nunca foi dessa forma. Materialmente, nunca houve essa profundidade que lemos nos textos. Isso é uma criação que surgiu, mais como uma postura intelectual. Algo que trabalha a imagem dessa mulher no sentido de comparar, a condição que a define . É uma situação criada que se aproxima da contemplação masculina sob o aspecto do desejo. Acredito que isso, vá além de fantasia. Suspeito que, como em qualquer pretensão masculina, a mulher para viver ao lado do homem, precisava passar a imagem de fragilidade, de ser sublime, onde esse homem, dependendo da necessidade, ele ” endeusa” , essa mulher, mas também a submete a seus vícios.
[…]
Podemos dizer que isso é um crime. Crime porque a mola da necessidade humano é voltada para os interesses. Mas, o amor verdadeiro não se dobra a interesses. Ou ele existe na forma pura, dando-se como um sentimento voluntário, ou é só uma experiência estreita. É o que vemos muitos por aí, são essas experiências que se desfazem com muita facilidade.
Sabemos que a ” a mulher amada”, é sempre vista como sinônimo de beleza. Mas, a pergunta é: ” porque quando acaba esse amor, ela vira um saco de pancadas?”
Dostoiévski tem uma colocação que acho bastante interessante, ele disse uma vez que ” a mulher que ama , ela encobre até os crimes do homem amado”. Tem lá ele a sua razão. Se isso for visto com uma certa profundidade, justifica por exemplo, toda essa negativa masculina sobre a figura feminina. Claro, não podemos esquecer que a mulher foi ensinada a suportar muita na sociedade. Às vezes, ela é capaz de dizer sorrindo que é feliz numa relação, mesmo que no banheiro chore sozinha. É o peso da submissão que as mulheres sempre viveram. Isso as levou a solidão. A solidão de um casamento que muitas vezes, você é casada, mas parece que não tem ninguém. A morte, muitas mulheres morreram por conta de não denunciar os maus-tratos do marido. Então, você recepciona essa carga negativa, que são reflexão de uma sociedade nunca olhou para a mulher com o devido cuidado, o devido respeito que todas elas merecem.
Amor, não é amor se na hora da raiva […], pela necessidade de prazer pessoal, castiga. Que espécie de amor é esse que sente prazer na dor do outro? Aonde fica a importância dessa pessoa na vida de alguém que a usa? Amor não é paralelo, por que submeter as minhas vontades? se a minha vem primeiro, qual é o grau de respeito pela outra? Essas coisas é que devem ser analisadas com cuidado. Se somos capazes de ” negociar “, através do diálogo, por que, não dizer: ” venha aqui, precisamos conversar!”. Isso sim, cria uma relação harmônica, inclusive ” pautada no respeito “. Mostra um comportamento íntegro, o que alivia inclusive, o peso de nossas ações. Agora, se me a longo de tudo isso, estou construindo que tipo de imagem? Certamente, uma imagem e conduta inadequada. Para a mulher, uma das coisas que faz com que ela vá ‘adoencendo’, dentro de uma relação pautada na imposição do homem, é justamente essa maneira de feri-la, não só fisicamente, mas psicologicamente. ‘ Maculou’ a imagem, essa mulher vai deixando de ter carinho e o cuidado de antes.
O amor entre um homem e uma mulher, está acima de interesses. De nada adianta ele a ‘endeusar’, criar essa imagem delicada, se na prática, se no dia a dia, não consegue ser íntegro. Claro, que nesse casa, irá surgir uma enxurrada de justificativa, não discuto. Acredito que cada uma cabe dentro de sua condição. Me atento, ao que me dediquei a escrever. A história feminina em nossa sociedade, ela algo que vai além dos contos literários, Machado de Assis, por exemplo. A idéia de romantismo criada a respeito da mulher. “Flores, sedas, perfumes, voz suave, vestes adequadas”. Não é isso que define a nossa condição. Se fala em respeito, mas é o respeito ao valor que nos acompanha. Quando digo que a história da mulher vai além, porque essas flores que ela ganha em vida, também pode ganhar na morte. O caráter forte desse texto é esse. É provocar mesmo…
Mulher é sinônimo de perfeição. Perfeito. Mas, o homem também é. O homem quando ele sabe ser e age como homem, ele encanta. Todavia, quando sai dos trilhos, é que se percebe as marcas […] do sofrimento que deixa.
Essa história que comporta muitas situações, e que fala da mulher, dentro da nossa sociedade, ela tem inúmeras justificativas. Na verdade, é um longo caminho, uma trajetória composta de obstáculos que não se resume a um simples texto. Todavia, serve para trazer a reflexão situações que merecem ser vistas com carinho. A verdade é que, ainda temos muito a amadurecer. Acredito que hoje, ainda temos por hábito ‘vestir as vestes de nossas mães’. Se elas foram felizes? Não se sabe ao certo. Mas, já passamos da fase de acender fogão. Hoje, lutamos por igualdade e liberdade. É uma marca de nossos pulsos.
As boas ações permitem que sejamos mais humanos. Todas às vezes que, num gesto de compreender o outro, eu sou capaz de saber interpretar o que ele sente, digo quando “me ponho no lugar dele”, ali estou demonstrando que dentro de minhas imperfeições, estou tendo um gesto de respeito, cuidado e consideração pelo o outro. Isso é visto como um gesto de humanidade, porque dentre outras coisas, existe amor.
Se através de minha consciência, sou capaz de compreender que aquele que é diferente de mim, dos meus gestos, gostos e da minha forma de contemplar a vida, é possuidor de elementos que considero importante, então, significa que estou me aprimorando enquanto ser humano, ou seja, eu não o desprezo. Esse é um dos detalhes que nos distingue das outras espécies, é a consciência. Ela é quem nos permite agir em meio do descontrole. Fazer o que certo, reparar os nossos erros. O que existe dentro de toda imperfeição humana, não é exatamente querer melhorar? Se o meu agir caminha para corrigir essas falhas, estou agindo conscientemente e fazendo o que certo. O que nem todo mundo faz, por exemplo. Muitos buscam agir de dura.
[…]
As pessoas mais inflexíveis, são aquelas geralmente sofrem por não querer admitir que cometem erros. Quase sempre são tomadas por orgulho, não demonstram qualquer gesto de empatia, não refletem o gesto de suas ações. São cruéis, agem voltas mais para o lado inumano. Muitas, creditam que ser bom, é ser idiota, quando na prática, se percebe que não. É justamente o contrário, fazendo o bem é que somos capazes de construir coisas de valores.
Todas vezes que assumimos esse compromisso conosco, estamos demonstrando que somos capazes de construir pontes que nos permitem ser vitoriosos ao invés de criar situação tumultuadas. Às vezes, maus – entendidos nascem justamente desse não saber lidar com pessoas ou situações em que se deve usar os sentimentos de forma correta. Se posso respeitar, por que não me permito ? O bonito da vida é isso. É esse saber lidar com o que nos desafia e também, aquilo que nos conquista. Imperfeitos todos somos, mas procurar cuidar melhor de si e do outro, é uma atitude que fala por si só, porque reflete de forma positiva a respeito de nosso comportamento.
Quer coisa mais importante do que isso? O que nos define, o que nos ajuda a crescer são atitudes ricas. São elas que nos permitem ter essa dinâmica bacana com as outras pessoas. Fazer o bem, nunca nos tornou mais pobre,pelo contrário nos enriquece. Pense nisso!..
Você precisa fazer login para comentar.