Carlos Drummond de Andrade

“Não, meu coração não é maior que o mundo.

É muito menor.

Nele não cabe nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto de me contar.

Por isso me dispo,

por isso me grito,

por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:

preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.

Só agora vejo que nele não cabem os homens.

Mas também a rua não cabe todos os homens.

A rua é menor que o mundo.

O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo

Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.

Viste as diferentes cores dos homens,

As diferentes dores dos homens,

sabes como é fácil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso

num só peito de homem…sem que ele está lá.

Fecha os olhos e esquece.

Escuta a água nos navios,

tão calma. Não anuncia nada

Entretanto escorre nas mãos,

tão calma! Vai inundando tudo…

Renascerão as cidades submersas?

Os homens submersos- voltarão?

Meu coração não sabe.

Estúpido, ridículo é frágil é meu coração.

Só agora descubro

como é triste ignorar certas coisas.

( Na solidão de indivíduo

desaprendi a linguagem

com que homens se comunicam.)”

Carlos Drummond de Andrade. Mundo Grande. (Texto Selecionados), Nova Cultural. São Paulo, 1990

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: via Facebook

Santarém, Pá 15 de junho de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

2 comentários em “Carlos Drummond de Andrade

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