Mário de Andrade

” Superar, pode, porque a superação é sempre um valor nascido da consciência e realizado na vontade. Mas não pode mudar. A não ser que uma mudança extrema drástica traga uma realidade ambiente outra, com a qual a sensibilidade acaba se acostumando. E essa mudança ainda não veio, e eu sou o que sempre fui. A superação foi de ordem consciente que sempre será a ordem pelo menos mais nobre e mais conclusiva do ser. E é nisto, agora, que o final do poema readquira todo o seu valor…”.

Mário de Andrade. Nova Cultural. São Paulo, 1990

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Marii Freire Pereira

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Santarém, Pá 5 de julho de 2020

Sandra de Sá

Você chegou na hora errada

Mas deu o tiro certo

Sem querer

Sorria e me dava o mundo

Sem saber

Quando a vida

Prepara uma cilada

Não adianta muito se esconder

É melhor ir lá no fundo

E tentar entender

Porque a sua voz

Fala tanto pra mim

Com você tudo fica melhor

Se você perceber

Que eu me sinto assim

Libero a timidez

Vai ser a minha vez de ser feliz

Sandra de Sá. Com Você Fica Melhor

Composição: Sandra de Sá/ Zé Ricardo

https:// m.letras.mus.br

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Marii Freire Pereira

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Santarém, Pá 4 de Julho de 2020

Florbela Espanca

Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!.. e o pensamento

Sempre a morder- nos bem, dentro de nós…

Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –

O brilho duma estrela, com o vento!…

E não se apaga, não…nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga…

Vem sempre perguntado : ” O que te resta?…”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta

Florbela Espanca. Angústia. In: Livro de Mágoas.

Escritas.org

Marii Freire Pereira

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Imagem: Pinterest. Flickr, Pond

Santarém, Pá 4 de Julho de 2020

Belchior

” Foi por medo de avião

Que eu segurei pela primeira vez a tua mão

Um gole de conhaque

Aquele toque em teu cetim

Que coisa adolescente

James Dean

Foi por medo de avião

Que eu segurei pela primeira vez a tua mão

Não fico mais nervoso

Você já não grita

E a aeromoça, sexy

Fica mais bonita

Foi por medo de avião

Que eu segurei pela primeira vez a tua mão…”

Belchior. Medo de Avião

Fonte: LyricFind

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Marii Freire Pereira

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Santarém, Pá 4 de julho de 2020

Carlos Drummond de Andrade

” Sou apenas um homem

Um homem pequenino à beira de um rio.

Vejo as águas que passam e não as compreendo.

Sei apenas que é noite porque me chamam casa.

Vi que amanheceu porque os galos cantam.

Como poderia compreender- te, America?

É muito difícil.

Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.

O rosto denuncia certa experiência.

A mão escreveu tanto, e não sabe cantar!

A boca também sabe.

Os olhos sabem – e calam-se.

Ai, América, só suspirando.

Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.

Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não

[ acompanham.

Inútil chamá-los: o vento, adoenças, o simples tempo

dispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios…”

Carlos Drummond de Andrade. América. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. São Paulo. 1945

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Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. ginmar.tumblr.com

Santarém, Pá 4 de julho de 2020

Mário de Andrade

” É um engano isso de afirmarem que a gente pode reviver, tornar a sentir as sensações e os sentimentos passados. As memórias são fragílimas, degradantes e sintéticas, pra que possam nos dar a realidade que passou tão complexa e intraduzível. Na verdade o que a gente faz é povoar a memória de assombrações exageradas. Estes sonhos de acordado, poderosamente revestido de palavras, se projetam na memória para os sentidos, e dos sentidos para o exterior, mentindo cada vez mais. São as assombrações. Estas assombrações, por completo diferentes de tudo quanto passou, a gente chama de chama do “passado”…

Mário de Andrade. Memória e Assombração. Nova Cultural. São Paulo, 1990

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Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. Voyage Visuel, Andrea A Elisabeth

Santarém, Pá 4 de julho de 2020

Carlos Drummond de Andrade

A noite

desceu. Que noite!

Já não enxergo meus irmãos.

E nem tão pouco os rumores que

outrora me perturbava

A noite desceu. Nas casas, nas ruas

onde se combate,

nos campos desfalecidos, a noite

espalhou o medo e a total

incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem

esperança…

Os suspiros acusam a presença negra

que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.

A noite é mortal, completa, sem

reticências,

a noite dissolve os homens, diz que é

inútil sofrer,

A noite dissolve as pátrias, apagou os

almirantes cintilantes!

Nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo…O mundo não

tem remédio…

Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,

ainda tímida, inexperiente das luzes

que vais ascender

e dos bens que repartirás com todos

os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e

humilhações,

advinho- te que sobra,

vapor róseo, expulsando a treva

noturno

…

Havemos de amanhecer.

O mundo se tinge com as tintas da

antemanhã

e o sangue que escorre é doce, de tão

necessário

para colorir tuas pálidas faces, aurora.

Carlos Drummond de Andrade. À Noite Dissolve os Homens.

https://www. escritas.org

Marii Freire Pereira

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Imagem: Pinterest. One Pixel Unlimited

Santarém, Pá 3 de Julho de 2020

Ariano Suassuna

[Com mote de Augusto dos anjos]

No relógio do Céu, o Sol ponteiro

Sangram a Cabra no estranho céu chumboso.

A Pedra lasca o Mundo impiedoso,

A chama da Espingarda fere o Aceiro.

No carrascal do sol, azul braseiro,

Refulge o Girassol rubro e fogoso

Como morrer na sombra do meu Pouso?

Como enfrentar as flechas desse Arqueiro?

Lá fora, o incêndio: o roxo lampadário

das Macambairas rubras e auri- pardos

Anjos- diabos e Tronos- vai queimando.

Sopra o vento – O Sertão incendiário!

Andam monstros sombrios pela Estarada

e, pela Estrada, entre esses Monstros, ando!

Ariano Suassuna. A Estrada, ” Poemas”. [ seleção é notas de Carlos Newton Júnior]. Recife: Editora Universidade da UFPE, 1999.

Revistaprosaeversoearte.com

Marii Freire Pereira

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Imagem: Wikipédia

Santarém, Pá 3 de Julho de 2020

Hilda Hilst

” Porque há desejo em mim, é tudo

cintilância

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e corpo, laboriso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidar. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, todo castigo

Ao invés de ganir diante de Nada.

Hilda Hilst. Porque há desejo em mim

culturagenial.com

Marii Freire Pereira

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Santarém, Pá 3 de julho de 2020

Nana Caymmi

De que é feito o amor?

Dizem que o amor é paz

O que o amor me deu

Ninguém vai me tirar

O meu amor só crê

Nas visões que o amor me dá

Se uniu dois corações

Não vai mais separar

Uniu dois mundos em vidas tão separadas

Juntou caminhos, mas separou as estradas

Cadê o amor, cadê?

Sinto que ele vai chegar

Posso morrer de amor

Ou por amor calar

O meu amor só crê

Nas visões que o amor me dá

Se uniu dois corações

Não vai mais separar

Nana Caymmi. Dois Corações

Composição: Ronaldo Bastos

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Marii Freire Pereira

Imagem: Globo.com

Santarém, Pá 3 de julho de 2020