Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo, eu no centro.
Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silêncio de sua roupas além da moda e de tecidos; roupas não anunciadas nem vendidas.
Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta,
ficava parado, suspenso no salão, objeto denso, tranquilo.
Notei um lugar vazio na roda.
Lentamente fui ocupá- lo.
Surgiram todos os rostos, iluminados.
Carlos Drummond de Andrade. Comunhão. Nova Cultural. São Paulo, 1990
Marii Freire Pereira
VEM comigo!
Imagem: Pinterest. lets GEit! Still With you on Twitter
Um dia com delicadeza, voltaremos tocar em nossas lembranças [ memory], de um jeito harmônico. Embalaremos com respeito, parte do que formos outrora. Reviveremos o gozo, os dissabores e todas as inquietações pendentes. Decerto que essas lembranças nos fará sentir a sensação do que ficou guardado num canto, ” num encanto” misterioso, grandioso pela largura talvez, ou quem sabe pelo exagero, só pelo exagero das palavras…
É bom nos encontrar de vez em sempre. Assim podemos saborear a docilidade com lucidez, bem como, reviver as acres lembranças, (…), são elas, que permitem com que se enxergue a realidade do jeito certo, ou seja, ‘ dura. Porém, se sabe que é através das angústias que é possível nos reconciliar com nós mesmos, é o que se chama de ” estar- no- mundo”. É essa linguagem que de um jeito certo, suscita o valor daquilo que vamos recebendo na surdina…podemos dizer assim. Evidentemente que, tudo o que chega causa mudança, e pode ir aos poucos enfraquecendo a gente, dilacerando por dentro, diria.
Ora, essa mudança pode surgir numa linguagem doce. Ora, diria que ela pode sugerir uma curiosidade maior para que se possa compreender todo esse processo – complexo- mas que de um jeito tímido, vai-se compondo a melodia dos sentidos, das assombrações, do que reveste-nos da memória de passado e presente. São lembranças que, uma vez manifestadas, causam a sensação de fragilidade. São registros que apesar, da profundeza em si, mostra não só o tempo percorrido, mas o que junta, soma e evidentemente… agrega, dentro desse silêncio que constitue a vida e todo o seu significado.
A memória tem essa coisa de fazer uma sondagem íntima daquilo que somos, considerando basicamente tudo, ou seja, não abandona nada, pelo contrário, ela considera o nosso afastamento, bem como a nossa reconciliação com tudo, ou seja, a nossa humanidade. É a partir das sensações de coisas que nos permeada algo como, dor, angústia, sofrimento que ela reúne essas características meio que debochadando de nós, e nos lança rumo ao exterior, ou seja, acaba nos expondo. E assim, diante de nossas mazelas, nos reconhemos como ser humanos, pessoa de valor.
Somos julgados por nós mesmos, a memória é uma intimidade que nos amedronta por origem. Socialmente, somos seres transfigurados, e poeticamente, personagens.. sem recriminações. Não adianta morrer, a vida é uma ordem. Vivamos em paz com o que prossegue em estado de dormência dentro de nós
Começo esse texto fazendo uma pergunta: você já reparou na imagem que aparece no espelho? Quando você se olha, quem você consegue enxergar? É você mesmo ( a) ou um personagem que você representa? Ora, que hilário, a sociedade nos educa para a felicidade. No entanto, nos costumamos cultivar o contrário. Como o contrário? Somos incentivados a enfrentar a dor.
Bem, desde que nascemos nossas mães, principalmente elas, que é, quem passa a maior parte do tempo conosco, nos diz para fazermos tudo de acordo com as regras que nos ensinam que é justamente para alcançarmos a tal da felicidade. E assim fazemos. Olhe, sente-se de pernas fechadas, sorria para parecer gentil, seja uma mulher inteligência, elegante [ se] preciso até submissa para ter um bom pai para os seus filhos. Ame, respeite, aprenda se vestir com elegância…” seja perfeita “, certamente, agindo assim, você construirá caminhos que te fará ser uma pessoa bem-sucedida. Certo? Ledo engano! O peso de todos esses ensinamentos, acaba nos tornando pessoas frustradas.
Na verdade, somos educados para sermos felizes, mas na primeira dificuldade, o que nos dizem? ” aguenta!”, fulano suportou isso e aquilo, você também pode. Entende? Nós, não somos preparados para lidar com o feio, com o que machuca, com o que dói. Pouco a pouco, acabamos sendo ” adestrados ” para aquilo que somos de verdade, ou seja, na maior parte do tempo, uma somatória de fracassos.
Às vezes, você entra em contradição consigo mesmo (a), por conta do que não entende ou mesmo, não sabe administrar acerca do que aprendeu. Aprendeu errado? Por que a vida não deu certo, afinal não somos moldados para os caminhos menos complicados? É, somos o resultado do inverso do que nos ensinaram, do que nos tiraram o direito de ser, ou ter… para refletirmos uma sociedade de ” faz de conta”.
Nós seres humanos, sofremos uma pressão enorme para sermos felizes. A maioria não suporta, finge ser, para tocar a vida. O ser humano se vir de mil maneiras para dizer que é feliz. Às vezes, vivem um casamento fracassado, mas não separa, só para não dá margem ao falatório alheio ou vive num emprego que não gosta só para ter uma vida para representar para outros. Afinal, que sentido faz isso? Não seria melhor se desde o início, ou seja, quando na fase de criança, já fossemos preparados para lidar com as frustações da vida, ao invés de alimentarem a nossa imaginação com coisas que não se alcança de forma gratuita? Claro que olhando para uma criança, percebermos que ela não tem estrutura física e psicológica para lidar com os problemas. Todavia, “mentir” para amenizar o peso da realidade também não ajuda, porque uma vez adulto, ela será uma pessoa que viverá uma eterna contradição.
Há pessoas que não sabem mesmo, lidar com determinadas situações, às vezes, é um adulto problemático. E para piorar a situação, tem aquele que diz” ah, eu passei por coisa pior, e não morri”. Mas entenda, cada ser é único, portanto, tem uma maneira de reagir!..
É comum em cada cultura, vermos pessoas sendo adestradas ou ensinadas, como queira com regras que as sobrecarregam, tornando portanto, pessoas infelizes. Quando essas pessoas, digo homens e mulheres chegam a uma certa idade, elas procuram no seu íntimo a verdade daquilo que são. É como se houvesse um espelho imenso diante de si, e no momento de seus conflitos internos, elas olhassem fixamente para aquela imagem na tentativa de se encontrar.
[…]
Afinal, quem reflete diante do espelho? Em quem a sociedade nos transforma? Somos nós mesmos, ou resultado daqueles que nos ensinaram ser ? E hoje, quem somos?
Estou a um passo de admitir que a vida que levo é um pretexto para ofuscar a vida que não gostaria de ter. Vida como desculpa para existir. E o incrível é que eu não dou o passo. Fico tão imóvel que estar parada é o meu maior movimento. O mais violento. E não consigo sair exatamente daquele lugar onde todas as sensações ocorrem, justamente por estar tão grudada em mim é onde mais dói: na pele.
Às vezes, é necessário abreviar a vida. Para novos recomeços, é preciso ter coragem para transformar aquilo que foi possível “recolher” do que encolhia- se dela. Reconhecer a si mesmo, é tirar o olhar da xícara de café, das viagens, das roupas caras e pegar no sono daquilo que somos dentro de nossas paredes secretas. O tempo do café pode esperar, as viagens, podem nos poupar dos desgostos. Não adianta acender um clarão é não permitir que sejamos. Nós somos! Somos sempre parte do sonho do dia seguinte, cansados talvez!..mas, teimosos. Teimosos no rascunho do que conhecemos de nós mesmos, e no que precisamos escrever. O dia amanheceu! Trate de averiguar bem a sua realidade e começas escrever um capítulo novo!!
Você precisa fazer login para comentar.