Carlos Drummond de Andrade

Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo, eu no centro.

Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silêncio de sua roupas além da moda e de tecidos; roupas não anunciadas nem vendidas.

Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta,

ficava parado, suspenso no salão, objeto denso, tranquilo.

Notei um lugar vazio na roda.

Lentamente fui ocupá- lo.

Surgiram todos os rostos, iluminados.

Carlos Drummond de Andrade. Comunhão. Nova Cultural. São Paulo, 1990

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. lets GEit! Still With you on Twitter

Santarém, Pá 31 de Julho 2020

Memory

Um dia com delicadeza, voltaremos tocar em nossas lembranças [ memory], de um jeito harmônico. Embalaremos com respeito, parte do que formos outrora. Reviveremos o gozo, os dissabores e todas as inquietações pendentes. Decerto que essas lembranças nos fará sentir a sensação do que ficou guardado num canto, ” num encanto” misterioso, grandioso pela largura talvez, ou quem sabe pelo exagero, só pelo exagero das palavras…

É bom nos encontrar de vez em sempre. Assim podemos saborear a docilidade com lucidez, bem como, reviver as acres lembranças, (…), são elas, que permitem com que se enxergue a realidade do jeito certo, ou seja, ‘ dura. Porém, se sabe que é através das angústias que é possível nos reconciliar com nós mesmos, é o que se chama de ” estar- no- mundo”. É essa linguagem que de um jeito certo, suscita o valor daquilo que vamos recebendo na surdina…podemos dizer assim. Evidentemente que, tudo o que chega causa mudança, e pode ir aos poucos enfraquecendo a gente, dilacerando por dentro, diria.

Ora, essa mudança pode surgir numa linguagem doce. Ora, diria que ela pode sugerir uma curiosidade maior para que se possa compreender todo esse processo – complexo- mas que de um jeito tímido, vai-se compondo a melodia dos sentidos, das assombrações, do que reveste-nos da memória de passado e presente. São lembranças que, uma vez manifestadas, causam a sensação de fragilidade. São registros que apesar, da profundeza em si, mostra não só o tempo percorrido, mas o que junta, soma e evidentemente… agrega, dentro desse silêncio que constitue a vida e todo o seu significado.

A memória tem essa coisa de fazer uma sondagem íntima daquilo que somos, considerando basicamente tudo, ou seja, não abandona nada, pelo contrário, ela considera o nosso afastamento, bem como a nossa reconciliação com tudo, ou seja, a nossa humanidade. É a partir das sensações de coisas que nos permeada algo como, dor, angústia, sofrimento que ela reúne essas características meio que debochadando de nós, e nos lança rumo ao exterior, ou seja, acaba nos expondo. E assim, diante de nossas mazelas, nos reconhemos como ser humanos, pessoa de valor.

Somos julgados por nós mesmos, a memória é uma intimidade que nos amedronta por origem. Socialmente, somos seres transfigurados, e poeticamente, personagens.. sem recriminações. Não adianta morrer, a vida é uma ordem. Vivamos em paz com o que prossegue em estado de dormência dentro de nós

[…]

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. nachozitsev

Santarém, Pá 31 de Julho de 2020

Afinal, qual é a imagem que reflete no espelho?

Começo esse texto fazendo uma pergunta: você já reparou na imagem que aparece no espelho? Quando você se olha, quem você consegue enxergar? É você mesmo ( a) ou um personagem que você representa? Ora, que hilário, a sociedade nos educa para a felicidade. No entanto, nos costumamos cultivar o contrário. Como o contrário? Somos incentivados a enfrentar a dor.

Bem, desde que nascemos nossas mães, principalmente elas, que é, quem passa a maior parte do tempo conosco, nos diz para fazermos tudo de acordo com as regras que nos ensinam que é justamente para alcançarmos a tal da felicidade. E assim fazemos. Olhe, sente-se de pernas fechadas, sorria para parecer gentil, seja uma mulher inteligência, elegante [ se] preciso até submissa para ter um bom pai para os seus filhos. Ame, respeite, aprenda se vestir com elegância…” seja perfeita “, certamente, agindo assim, você construirá caminhos que te fará ser uma pessoa bem-sucedida. Certo? Ledo engano! O peso de todos esses ensinamentos, acaba nos tornando pessoas frustradas.

Na verdade, somos educados para sermos felizes, mas na primeira dificuldade, o que nos dizem? ” aguenta!”, fulano suportou isso e aquilo, você também pode. Entende? Nós, não somos preparados para lidar com o feio, com o que machuca, com o que dói. Pouco a pouco, acabamos sendo ” adestrados ” para aquilo que somos de verdade, ou seja, na maior parte do tempo, uma somatória de fracassos.

Às vezes, você entra em contradição consigo mesmo (a), por conta do que não entende ou mesmo, não sabe administrar acerca do que aprendeu. Aprendeu errado? Por que a vida não deu certo, afinal não somos moldados para os caminhos menos complicados? É, somos o resultado do inverso do que nos ensinaram, do que nos tiraram o direito de ser, ou ter… para refletirmos uma sociedade de ” faz de conta”.

Nós seres humanos, sofremos uma pressão enorme para sermos felizes. A maioria não suporta, finge ser, para tocar a vida. O ser humano se vir de mil maneiras para dizer que é feliz. Às vezes, vivem um casamento fracassado, mas não separa, só para não dá margem ao falatório alheio ou vive num emprego que não gosta só para ter uma vida para representar para outros. Afinal, que sentido faz isso? Não seria melhor se desde o início, ou seja, quando na fase de criança, já fossemos preparados para lidar com as frustações da vida, ao invés de alimentarem a nossa imaginação com coisas que não se alcança de forma gratuita? Claro que olhando para uma criança, percebermos que ela não tem estrutura física e psicológica para lidar com os problemas. Todavia, “mentir” para amenizar o peso da realidade também não ajuda, porque uma vez adulto, ela será uma pessoa que viverá uma eterna contradição.

Há pessoas que não sabem mesmo, lidar com determinadas situações, às vezes, é um adulto problemático. E para piorar a situação, tem aquele que diz” ah, eu passei por coisa pior, e não morri”. Mas entenda, cada ser é único, portanto, tem uma maneira de reagir!..

É comum em cada cultura, vermos pessoas sendo adestradas ou ensinadas, como queira com regras que as sobrecarregam, tornando portanto, pessoas infelizes. Quando essas pessoas, digo homens e mulheres chegam a uma certa idade, elas procuram no seu íntimo a verdade daquilo que são. É como se houvesse um espelho imenso diante de si, e no momento de seus conflitos internos, elas olhassem fixamente para aquela imagem na tentativa de se encontrar.

[…]

Afinal, quem reflete diante do espelho? Em quem a sociedade nos transforma? Somos nós mesmos, ou resultado daqueles que nos ensinaram ser ? E hoje, quem somos?

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. Google.com.br

Santarém, Pá 29 de Julho de 2020

Mario Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha

Hoje, dos meus cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.

Arde um toco de Vela amarelada,

Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de

estrada!

Pois dessa mão avaramemte adunca

Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula é triste como um ai,

A luz de um morto não se apaga nunca!

Mario Quintana. A Rua Dos Cataventos

escritas.org

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Dulce Helfer/ Correiodopovo.com.br

Santarém, Pá 29 de Julho de 2020

Clarice Lispector

Estou a um passo de admitir que a vida que levo é um pretexto para ofuscar a vida que não gostaria de ter. Vida como desculpa para existir. E o incrível é que eu não dou o passo. Fico tão imóvel que estar parada é o meu maior movimento. O mais violento. E não consigo sair exatamente daquele lugar onde todas as sensações ocorrem, justamente por estar tão grudada em mim é onde mais dói: na pele.

Clarice Lispector. Onde mais dói

Mensagenscomamor.com

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. Veja Rio

Santarém, Pá 29 de Julho de 2020

Lima Barreto

” Não é a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa.”

Lima Barreto.

https:// http://www.pensador.com

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: arquivo pessoal

Santarém, Pá 29 de Julho de 2020

Sobre um mar de rosas que arde

” Sobre um mar de rosas que arde

Em ondas fulvas, distante,

Erram meus olhos, diamante,

Como as mais dentro da tarde

Santarém nau em que, oh! alma, descuidas

Das esperanças tardias.”

( Pedro Kilkerry. In: Ítalo Maricone. Os cem melhores poemas brasileiros do século. São Paulo: Objetiva)

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar. São Paulo, 2013

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: arquivo pessoal / Monet. Os barcos 1874

Santarém, Pá 30 de Julho de 2020

VEM comigo!

Às vezes, é necessário abreviar a vida. Para novos recomeços, é preciso ter coragem para transformar aquilo que foi possível “recolher” do que encolhia- se dela. Reconhecer a si mesmo, é tirar o olhar da xícara de café, das viagens, das roupas caras e pegar no sono daquilo que somos dentro de nossas paredes secretas. O tempo do café pode esperar, as viagens, podem nos poupar dos desgostos. Não adianta acender um clarão é não permitir que sejamos. Nós somos! Somos sempre parte do sonho do dia seguinte, cansados talvez!..mas, teimosos. Teimosos no rascunho do que conhecemos de nós mesmos, e no que precisamos escrever.
O dia amanheceu! Trate de averiguar bem a sua realidade e começas escrever um capítulo novo!!

Marii Freire.

Renato Teixeira

” É de laço e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

Sobre o meu cavalo

É de laço é de nó

De gibeira o jiló

Dessa vida, cumprida a sol

Sou caipira pirapora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

o meu pai foi peão

Minha mãe solidão

Meus irmãos

Perderam- se na vida

A custa de aventuras

Descasei, joguei

Investi, desisti

Se há sorte

Eu não sei

Nunca vi

Me disseram porém

Que eu viesse aqui

Prá pedir de romaria e prece

Paz nos desaventos

Como eu não sei rezar

Só queria mostrar

Meu olhar, meu olhar,

Meu olhar…

Renato Teixeira, Romaria

Fonte: Musixmatch

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. deborando

Santarém, 29 de Julho de 2020

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que os mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros. O apanhador de desperdícios.

culturafm.cmmais.com.br

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. Dean Crouser Fine Art

Santarém, 29 de Julho de 2020