Carlos Drummond de Andrade

” Amor é estado de graça

e com amor não se paga”.

Carlos Drummond de Andrade.

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, ano: 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 8 de março de 2020

Quando a vida pede um pouco mais de calma

Às vezes, a vida nos permite apreciar o tempo presente, esse que se vive com tanta pressa, de um jeito delicado. Não digo, necessariamente, ‘ delicado’, referindo-me a carinho. Não, carinho se tem pelas coisas que nos cativa. A vida nem sempre nos cativa, pelo contrário, muitas vezes, nos arrasta , intimida diante do que precisamos decifrar para compreender o verdadeiro sentido de estarmos vivos.

O processo de construção continua daquilo somos, é doloroso. Todos dias temos que nascer de novo. Temos que nos despir de alma se quisermos de fato, agregar algum valor, ao invés de ficar parado no tempo, revivendo acontecimentos que nos impede de progredir.

A vida sempre nos pega pelo avesso, sempre nos ensina pelo lado mais dolorido. É impressionante como tudo aquilo se precisa aprender, ela é tão sincera, tão franca, tão cara limpa que nos encanta. Você já viu pessoas assim, tão inteiras, donas de si mesmas? São pessoas que foram sendo costuradas pelos seus avessos, ou seja, de ” dentro pra fora”. São pessoas que aprenderam com suas dores, e não usaram de subterfúgios para se esconder.

Quando essas pessoas vivem os seus dramas, elas escolhem calar, ainda que por dentro, o silêncio seja o seu grito mais forte. É maravilhoso encontrar um ser humano tão grande, tão completo. Gente que nos é um exemplo, de força e superação,porque nos ensina a querer percorrer os mesmos caminhos, para conseguir também alcançar tal fortaleza.

Quem aprende a se decifrar, consegue lidar melhor com os seus conflitos. Sabem se colocar no lugar do outro. Claro, que muitos, em meios aos questionamentos da vida são resilentes, não se dobram. Todavia, os que se deixam aprender, sempre tem o que agregar.

De alguma maneira, porque sabem que o valor de uma envergadura saudável, é capaz de muito na vida de uma pessoa. E por mais dolorido que seja, a vida delas foram sendo construídas dentro de uma calmaria, que não nasceu de maneira repentina. Não, tudo vem de um contexto, onde elas não puderam se esconder, como tanta outras fazem. Não se anularam diante de suas fragilidades, mas souberam fazer das lágrimas verdadeiras ‘ gotas de orvalho ‘ e assim, cativar dentro de si, a poesia que há nos dias, mesmos os mais tristes .

[…]

Aprenderam a considerar o valor de ser verdadeiros consigo mesmo, é uma dádiva. E embora, muitos não consiga entender, a vida precisa desse momento de calmaria. É quando se tem um pouco mais ‘de alma…’. A alma é necessária para se construir a calma. Tem gente que não. Dependo do que aconteça, vira carrasco de si. A irritabilidade, a arrogância faz com que se esquivem de coisas tão importantes para o ser humano, que é justamente esse aprender a se relacionar consigo.

É interessante mergulhar em nós mesmos, aprender a contemplar a beleza que há no silêncio. Não ser escravo das emoções, agir sem pensar. Isso é o que nos diferencia dos demais, é esse poder de negociar, ter flexibilidade para obter algo no momento certo, respeitando o movimento da vida. De fato, é o que nos torna pessoas melhores…

…eterno aprendizes!

Fernando Pessoa

” Deixa que o meu olhar desça

Ao fundo da tua alma,

Que olhando-te te conheça

E saiba o que há sob a calma

Do teu ser visto tão suave

Como o voar de uma ave.

Deixa que eu olhe os teus olhos

E fite os não ver

Mas só perceber

Uma alma à vista nascer

E eu ver-te os sentimentos

Nos meus atentos “

Fernando Pessoa.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 8 de abril de 2020

Vinícius de Moraes

” E o olhar estaria ansioso esperando

E a cabeça ao sabor da mágoa balançando

E o coração fugindo e o coração voltando

E os minutos passando e os minutos

[ passando…

Vinícius de Moraes ( Nova antologia poética. São Paulo: Companhia das letras, 2009)

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 8 de abril de 2020

Lygia Fagundes Telles

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que ao redor tudo era silêncio e treva. E me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com criança e eu. […]

Debrucei- me na grade de madeira carcomida.

Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos

com mortos num antigo barco de mortos deslizando

na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

Lygia Fagundes Telles, ” Natal na barca”. In: Antes do baile verde. Rio de Janeiro, 1979.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Paulo Magalhães/ Getty

Santarém, Pá 7 de abril de 2020

Chico Buarque

” Trocando em miúdos, pode guardar

As sombras de tudo que chamam lar

As sombras de tudo que fomos nós “

Chico Buarque. In: Adélia Bezerra de Menezes Bolle, org. Chico Buarque de Holanda. São Paulo, abril, 1980.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 7 de abril de 2020

Fernando Pessoa

” Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma, não tem calma…”

Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas, Ática, 1973.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem pública

Santarém, Pá 7 de abril de 2020

Carlos Drummond de Andrade

” Sinto que o tempo sobre mim abate

sua mão pesada. Rugas, dentes, calva…

Uma aceitação maior de tudo,

e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?

Darei aos outros a ilusão de calma?

Serei sempre louco? sempre mentiroso?

Acreditarei em mito? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.

Ainda criança, já me atormentava.

Hoje estou só. Nenhum menino salta

de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse re começar o dia!

Usar de novo minha adoração,

meu grito, minha fome…Vejo tudo

impossível e nítido, no espaço

Lá onde não chegou minha ironia,

entre ídolos de rosto carregado,

ficaste, explicação de minha vida,

como os objetos perdidos na rua…”

Carlos Drummond de Andrade, Versos à boca da noite. A Rosa do Povo, 1945

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 7 de abril de 2020

Amor

Amor, ou ” amore” como se costuma dizer em latim. O que é amor, o que é amar uma pessoa? Primeiramente, amor é a afeição que tenho por outra pessoa. Essa afeição nasce a partir de um conjunto de características que me é própria. Por exemplo, quando olho para alguém e essa pessoa me desperta um certo encantamento, ou seja, um interesse. Eu, certamente vou fazer de tudo para chamar a sua atenção, não vou? Sim, e ao lançar o olhar, juntamente com carinho, com pureza e docilidade sobre a outra pessoa e ela sendo capaz de corresponder com uma concordância silenciosa, é sinal de que houve essa troca de interesse mútua. Claro, tímida, porém sentida, manifestada, ou seja, há essa troca afetuosa e ao mesmo envolvente. E aí, sob essas condições que há a manifestação do amor, é que voi fazer de tudo para provar do seu deleite.

É evidente que, quando se fala de amor, existem outras formas para definir esse sentimento, porém, essa manifestação da vontade tem que ser espontânea. É como disse, tem que haver uma troca mútua, afetuosa. Isso é o que se chama de amor verdadeiro, ou seja, aquele que vem desprovido de interesse. Todavia, tem o amor que essa afeição vem acompanhada do interesse sexual, mas nesse caso, já parte para outra concepção que designa esse sentimento. Portanto, não irei abordar. Falarei do amor no sentido maior, esse que é naturalmente gostoso, no melhor sentido da palavra.

Amor é um estado de graça, onde esse sentimento só pode ser construído dentro de uma realidade subjetiva, com sobretons nostálgicos. Você pode notar que entre os casais apaixonados há toda uma troca, há um cuidado o tempo inteiro. Então, pode-se dizer que, o amor pessoa pela linha tênue da emoção de modo, a alcançar a lucidez ali, dentro de sua própria fonte. Digamos que os casais apaixonados, vivem um absurdo utópico dentro de si mesmo. Por isso é que chega um determinado momento em que o amor não é capaz de ouvir mais nada, a não ser a si mesmo.

É lindo notar essa troca recíproca entre as pessoas que se ama. E o amor é uma coisa tão absurda, que você nota aquele sentimento vindo de dentro pra fora de modo autoritário. A impressão que se tem é que ele perpassa a linha o tempo.

[…]

Às vezes, ele é expresso tão poeticamente, que a sua essência acaba deixando reticências no imaginário de outras pessoas. Amar é uma maravilha, e ser amado é melhor ainda. É evidente que o amor tem as suas inquietações, mas o amor verdadeiro, é uma doação. Você tem que dar para tê-lo em troca.

Podem -se afirmar que no amor, há sucesso e há fracasso. Ele só cresce a medida em que você se dispõe, e se por acaso, se tornar negligente com os devidos cuidados ele vai sendo desgastado pelo tempo. O Amor que caminha só fracasso começa com as mentiras, os esquecimentos. Isso caracteriza a primeira a primeira forma de abandono. Todavia, o movimento do amor é sempre voltado para o resgate genuíno dele mssmo. Se há um cuidado especial, ele lindo, sorridente como uma criança que anda descalço.

[…]

O amor não muda com o tempo. Você nota que existem casais que estão juntos há anos, mais cultivam os mesmos valores. Talvez o que mude para muitas pessoas é a forma de amar. O Amor tem a sua desenvoltura própria. Se deixamos de perceber isso no momento certo, não tenha dúvida, ele caminhará ao fracasso. Então, terás que sonhar um novo amor.

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 7 de abril de 2020

Fernando Pessoa

” Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades: Para viver a dois, é necessário ser um”.

Fernando Pessoa

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: via Facebook

Santarém, Pá 7 de abril de 2020