Negro forro

Minha carta de alforria

não me deu fazendas,

nem dinheiro no banco,

nem bigodes retorcidos

Minha carta de alforria

costurou meus passos

aos corredores da noite

de minha pele.”

Adão Ventura. In: Ítalo Moriconi, org. Cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 12 de maio de 2020

Despedidas

A dor, as lágrimas sempre nos fazem companhia numa fase de turbulência. O sentimento de culpa também nos acompanha. Choramos escondido nos fazendo de fortes, às vezes, atravessamos noites pensando, nos recolhendo nos nossos desertos. E quantos desertos, um verdadeiro reino de solidão.

[…]

Falamos sozinhos, agimos e reagimos tentando superar as nossas crises, as nossas adversidades. Tentamos simplesmente, nos despedir de experiências dolorosas que muitas vezes, acumulamos sem nos darmos conta ou mesmos em situações reais que construímos, mas que por infelicidade, tudo se desfaz. São coisas que fogem do controle, situaçõe que muitas vezes, na ânsia de salvá-las, somos taxados de loucos, descontrolados. Mas que querendo ou não exigem uma resposta contundente de nós. Aliás, o ser humano é assim, ele quer sempre respostas claras.

Há um ditado que diz que ‘quem adoça a vida diante de uma crise, torna-se generoso’, porque dentre outras coisas, a pessoa é nobre consigo mesmo ( a). É provável que sim, porque no fundo, se age com atitudes nobres. Então, nada mais genuíno do que essa troca.

Todavia, mesmo quando somos generosos conosco, temos que entender que nem sempre vale a pena enfrentar gigantes. Alguns são puramente imagináveis ou seja, fruto da imaginação de cada um. Às vezes, o bom mesmo, é simplesmente, deixar de ser paranóico (a), deixar de reagir e agir sim, mas em nosso favor. Além do mais, é sempre interessante conseguir prepara-se para as despedidas. Muitas coisas chegam e vão embora com uma facilidade incrível.

É difícil? Sempre. Todas as despedidas são dolorosas, principalmente quando prolongadas. Elas nos causa uma espécie de adoecimento psíquico, porque se perde até a própria dimensão do valor que se tem. De repente, ficamos instintivos demais, agressivos, críticos. E por que? Porque tudo isso, surge como se fosse um alerta, onde nos diz ” fique atento ” há adversidades pela frente. É como se o nosso botão de alerta pudesse acender em fração de segundos. Dessa forma, ficamos mais inquietos, menos lúcidos, tentamos chamar a atenção de qualquer maneira, torna-se inclusive, violento contra si mesmo.

Não é simples saber interpretar a nossa própria agitação. Agora também não é bom ficarmos nos boicotando o tempo todo. Aprenda julgar e criticar aquilo que exige a sua renúncia de forma saudável. É isso mesmo, deixe ir. Não se despeça. Deixe ir _ no acaso, tudo se refaz.

Muitas vezes, é no desconforto dos nossos enfrentamentos que conseguimos acumular forças. É no ato de ‘negociar consigo mesmo’ que a vida vai se tornando coerente…

É após o caos que vemos a bonanza. Acredite!

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 12 de maio de 2020

Mário de Andrade

A febre tem um rigor suave de tristeza,

E os símbolos da tarde comparecem entre nós;

Não é preciso nem perdoar nem esquecer os crimes

Pra que venha este bem de sossegar na luz pouca luz.

É a nossa intimidade. Um fogo arde, esquentando

Um rumor de exterior bem brando, muito brando,

E dá clarões duma consciência intermitente.

A poesia nasce.

Tu sentes que o meu fluido se aninha em teu colo e te beija

[ na face,

E, por camaradagem, me olhas ironicamente.

Mas estamos sem mesmo a insistência dos nossos brinquedos.

E o vigor suave da febre

Não intimida os nossos corações tranquilos.

Mário de Andrade, Poema da Amiga, XI Textos Selecionados. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1990.

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 12 de maio de 2020

Pessoas controladas pelas emoções

Há momentos na vida que temos reações como qualquer mortal. Um pequeno gesto, uma palavra dita de maneira inadequada, e nós, temos o desejo de virar rei, ou seja, mandar a pessoa a ‘fruta que floriu’. O que não é comum, mas isso é uma expressão que retrata muito a nossa força interna, a maneira de agir instintivamente. Quer dizer, agimos de modo errôneo. De repente, estilhaça tudo e o rei que existe em você fala atrocidades.

Se você é uma dessas pessoas que perde o controle de tudo, mesmo nas diferentes situações, então você é uma pessoa ‘controlada pelas emoções’. Cuidado. Cuidado porque agir de maneira descontrolada é péssimo. Além de falar coisas que machuca, às vezes, perde- se relacionamento, amizade, trabalho por conta dessa situação complicada.

Quando a pulsação, a raiva e toda carga negativa vir a sua mente, e nesse momento, sentir vontade de falar, tome cuidado. Se for num relacionamento mais ainda, porque se agir sempre dessa forma, essa relação a pessoa que você diz amar, certamente essa relação estará destinada ao fracasso. Claro que, você também não deve aceitar certas coisas. Se é para demonstrar que você é essa pessoa descontrolada, procure ter uma atitude simples, porém correta. Converse, ouça tudo a outra pessoa tem a dizer. Após isso, diga o que se passa na sua mente, esclareço tudo aquilo que de certa forma, trás um desconforto a você, o pensa sobre melhorar ( Se é que, isso é possível), porque agindo assim, você dará a outra pessoa o direto dela pensar na sua maneira de agir, nos seus atos e tudo que complementa uma relação. Se perceber que não há mais condições de manter tal relacionamento, faça melhor: liberte-se disso. Nada de ficar acumulando sentimento estragado. Sentir ciúmes é bom, mas é um ” bom” que tem limite, ultrapassou isso, saia. É uma forma até de você se proteger de coisas piores.

Agir conforme a nossa vontade, digo por instinto sem pesar as consequências, abre margem ao contraditório. Isso, sem dúvida acaba virado uma grande dor de cabeça. Portanto, se tiver que agir, procure ser mais neutro ( a). Exatamente, seja claro, sincero, isso não é bom só para quem estar com você. É bom pra você aprenda a controlar as emoções. Nesse caso, vontade é poder sim, mas poder ter o controle das coisas é não deixar que elas controlem você.

Construa sempre um diálogo franco, isso serve para tudo na vida. Serve para amizade, trabalho, amor. Seja transparente porque quem te assiste vai compreender o que você quer, a mensagem que você transmite.

Boa sorte!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 12 de maio de 2020

Suavidade

Suavidade é pode contemplar os dias com mais delicadeza. Suavidade da brisa, do riso de uma criança, da ousadia de acreditar no medo de si mesmo. Suavidade é antes de mais nada, enxergar a vida com os olhos alma.

[…]

É raro não olhar para vida e deixar de compreender que ela só se constrói no silêncio. O silêncio é a oportunidade de se aprender. É diante dos problemas que aprendemos ser flexíveis, dominar o emocional.

Quando a vida é construída em cima de muito ruído, só enxergamos o que queremos, só aceitamos as verdades que nos convém. Observe, a opinião das pessoas, elas sempre denunciam as suas insatisfações.

Falar às vezes, não nos mostra tão gentil, há situações que surgem até mal-entendidos. São opiniões equivocadas que se fazem por ocasião do uso de palavras inadequadas, onde se tivéssemos um pouquinho mais de atenção, perceberíamos que o silêncio constrói …segurança.

Constrói aquilo que ninguém pode tirar de você que é a oportunidade de sempre… conseguir aprimorar-se. De elevar a autoestima, de nos fazer bonitos por aquilo que se protagoniza por dentro.

Quando tiver vontade de falar…suavize…as palavras.

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 11 de maio de 2020

Charles Baudelaire

Quando, pesado e baixo, o céu como tampa

Sobre a alma solucante, assolada aos açoites,

E que deste horizonte, a cercar toda a tampa

Despeja- nos um dia triste que as noites;

Quando se transformou a Terra em masmorra úmida,

Por onde essa esperança, assim como um morcego

Vai tangendo paredes ante uma asa túmida

Batendo a testa em tetos podres, sem apego;

Quando a chuva estirou os seus longos filmes

Como as grades de ferro em uma ampla cadeia,

E um povoado mudo de aranhas infames

Até os nossos cérebros estende as teias,

Súbito, os sinos saltam com ferocidade

E atiram para o céu um grande gemido fremente,

Tal aquelas errantes almas sem vida de

Que ficam lamentando- se obstinadamente.

_ E féretros sem fim, sem tambor ou pavana,

Lentos desfilam dentro em mim; e a Esperança,

Vencida, Chora, a Angústia, feroz e tirana.

A negra flâmula em meu curvo crânio lança.

Charles Baudelaire. SPleen _ LXXVII ( In: José Lino Grünewald, org. e trad. Poetas Frances do século XIX. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1991

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 11 de 2020

Machado de Assis

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descansa dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs o mundo inteiro

Trago- te flores – restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis, CAROLINA.

escolaeducação.com.br

Imagem: Academia.org.br

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 11 de maio de 2020

Felicidade

Felicidade é um sentimento que nos ocorre de forma fragmentada. Primeiro, se atravessar um período conturbado, para só então senti- la. É necessário que se viva um período de tristeza para reconhecemos o significado de felicidade. O termo ‘ felicidade ‘ tem várias denominações, porém só pode ser compreendido, quando pudermos de fato, fazer uma comparação, ou seja, o valor que damos a algo ou situação só pode ser manifestado quando passar por uma linha tênue que nos possibilite encontrar uma razão de ser. Há um ditado que diz que após, um período nublado, surge sol.

[…]

Imagine, um sol acompanhado de um lindo sorriso, o seu sorriso. A verdade é que, não precisa -se de um sorriso permanente. todavia, precisamos sorrir. Não para querer passa a falsa idéia de felicidade que muitas vezes é até perceptível em nosso meio. Mas, um sorriso que aflora de dentro para fora, ou seja, o sorriso da alma, aquilo que você sabe que é verdadeiro, e vem do resultado de suas ações quando essas são bem-sucedidas.

A felicidade se vivida fosse de modo ininterrupta não teria o mesmo significado para todos, porque no fundo, o que se deseja é explorar as diversas formas que nos permitem alcancá-la. São essas pequenas conquistas que trazem um significado importante para nós, para nossa vida.

Às vezes, é necessário que se perca algo no momento presente para valorizarmos, outro com o mesmo valor lá na frente. São os regalos da vida. É uma maneira sábia que ela tem de nos fazer pensar e, assim permitir que se busque meios, maneiras, se faça um esforço maior para ter condições de compreender com a devida clareza – o significado de felicidade.

A felicidade se apresenta de diferentes formas. Tem pessoas que são felizes sem fazer barulho, assim como também, tem aquelas que fazem questão de externar esse sentimento. Todavia, felicidade é uma evolução, uma conquista pessoal que se manifesta de forma íntima. Pode contagiar aqueles que estão próximos ou simplesmente viver isso dentro do nosso ser, de acordo com as nossas emoções, de forma confidencial.

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 11 de maio de 2020

Caruso

“Qui dove il mare luccica

E tira forte il vento

Sulla vecchia terrazza

Davanti al golfo di surriedo

Uno uomo abbracia una regazza

Dopo che aveva pianto

Poi si schiarisce lá voce

E ricomincia il canto

Te voglio bene assai

Ma tanto tanto bene sai

É una catena ormai

Che scioglie il sangue tinto bebê sai

Vide le luci in mezzo al mare

Penso alle notti lá in america

Ma erano solo le lampare

E la bianca scia di un’elica

Senti um dolore Bella música

E si Alzira falar pianoforte

Ma quando vide uscire

La Luna da uma nuvola

Gli sembro piu solve anche lá morte

Gurdò negli occhi la ragazza

Quegli occhi verdi como um mare

Poi all’improvviso usci una lagrima

E lui credette di affogare

Te voglio bene assai

Ma tanto tanto bene sai

E una catena ormai

Che scioglie il sangue tinto vene sai…”

Lucio Dalla, Caruso.

https://m.letras.mus.br

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem Ponza, Itália

Santarém, Pá 11 de maio de 2020