” Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno- me olímpico. ¹⁰
Graciliano Ramos. ( para amar Graciliano). FRACASSO E DECADÊNCIA: O LUGAR DO INTELECTUAL. Como descobrir e apreciar os aspectos mais inovadores de sua obra. Ivan Marques. Faro. Barueri, 2017
Como disse a Virginia Woolf ” Algumas pessoas procuram os padres, outras a poesia; eu os meus amigos.” No meu, acrescento: ” OS LIVROS “. As livrarias, um cantinho aconchegante, etc. Tudo que um bom um livro possa me acrescentar, eu dedico esse tempo precioso.
Não é atoa que gosto de incentivar a leitura. Acredito que ela é extremamente necessária a todos nós.
É importante que o ser humano, de modo geral, o indivíduo esteja atualizado com todas as notícias, com as informações que nos são repassadas. É notório a dificuldade de muitas pessoas em não saber lidar com determinados assuntos. A leitura serve para isso, para ampliar o seu conhecimento em relação a algo.
Não é atoa que durante muitos anos, a educação foi usada como instrumento de controle, principalmente em relação às mulheres. Na sociedade, perpétuou-se a idéia de que ” mulher não sabe fazer…”. O fato é que, não é que a mulher não soubesse fazer. Mas essa “capacidade de fazer…”, foi lhes tirada. Tanto que muitas lideram no mercado de trabalho. Claro, ainda se um jeito tímido. Mas, pouco a pouco, elas vão conquistando os espaços que antes, só era composto pelos homens. Compreendes como não é o fato da mulher não saber fazer? É a oportunidade que só veio depois de muita luta pelo o reconhecimento de direitos. Contra a discriminação, o preconceitos de todas as espécies, vamos dizer assim. Foi só a partir do rompimento desse ” véu de ignorância que muitas mulheres puderam atuar e fazer uso do que lhes faz parte do próprio direito. Mas é preciso insistir! Essa é uma luta diária.
É por isso que estou sempre incentivo a leitura : Leia, “leia tudo”, leia até “bula de remédio “. Mas, se interesse por alguma forma de conhecimento. A leitura nos deixa menos alienados, vulneráveis a qualquer coisa.
Nem precisa fazer uso da expressão: ” sou bacharela em direito ” e desafio qualquer profissional da área revelar o artigo que tipifica o ‘ estupro culposo ‘. Isso é ridículo, porque todos sabem que ele não existe. Não foi com base numa situação inexistente que vimos todo esse episódio pitoresco acontecer. Por favor!.. Esse tipo de situação, vem alicerçada no modelo de sociedade de outrora. Situações como o machismo, preconceito e discriminação sempre existiram em nossa sociedade. Por séculos alimentamos a idéia de que o errado era o correto. Antigamente, 95% das cabeças pensantes de nossa sociedade achava natural, discriminar o gay, fazer canções ridículas, é ou não é? tratar as mulheres com piadinhas sem graça, coisas como ” vai pilotar fogão ‘, sempre foi assim, estou errada? ” sua essa” ou ” sua aquilo”. A minha posição é melhor do que a sua, viu?! Compreendeu a questão da hierarquia? ” Eu não tenho filhas desse nível?” Você pensa que isso é o que, hein? É ” brincadeirinha!”…’deixe prá la’, releva que passa!.. Eu vejo essa questão como o reflexo de posturas erradas. Foram coisas que acabaram sendo tecidas dentro de uma ignorância e que ora, gerava prazer para alguns. Ora, gerava sofrimento para outros. É uma falta de respeito para com todos, e não só com as mulheres. A análise que devemos fazer em relação ao que aconteceu deve ser minuciosa, porque ela tem que ter esse ‘olhar para traz..’ Isso sim, nos permite enxergar com clareza todos os pressupostos necessários para compreender de fato o que aconteceu. São resquícios de uma sociedade machista e patriarcal, porque são questões que não se trata só da atuação de um profissional. Não estava ali só o advogado, mas um homem agindo como homem, porque o lado reto do profissional foi esquecido, e não foi porque ele teve liberdade de falar o que falou, ou porque deixaram que ele chegasse aquele ponto. você tem que avaliar que não cabe mais nos dias de hoje uma pessoa agir daquela forma. Ele até pode, desde que seja dentro do seu lar. Ali é particular. Todavia, o que se questiona é o comportamento dele com a Mariana Ferrer. São insultos, colocações que de fato, não podem existir, não só na atuação do advogado, mas qualquer situação parecida. A piada, a ridicularizaçao machuca, melhor, ” viola” o direito de uma pessoa. Por que você acha que hoje se procura corrigir esse tipo de ação em relação a quem é vítima de situações idênticas ao acontecido? Tem pessoas que têm um comportamento diferente? Tem, mas você observar que o que predomina neste caso, na verdade, sãopráticas culturais atrasadas, situações que outrora era tratada com naturalidade. Hoje não mais. Isso é intolerável. A Constituição Federal/ 88, não recepciona nada que seja parecido como que vimos. A idéia de Justiça aplicada ali, não é válida. Portanto, cada artigo, inciso e parágrafo não nasceram por acaso. Por trás de tudo que está escrito, existem histórias de pessoas que tiveram os seus direitos violados. Foram feridas, humilhadas, “sujeitadas…”, como é o caso das mulheres. Parece ridículo, mas quando você defende o óbvio, quando você defende essa questão de forma clara e precisa, ainda vem uma infeliz, sim vou tratar como ” infeliz ” e acha que você tá falando ” nerda “. Ah!… me poupe! Você pode optar por ser desconhecedora dos seus direitos, eu não!! Se estudou direito e tem uma mentalidade atrasada o problema e seu, e não meu. São séculos de desrespeitos para com as mulheres, isso não tem preço. Definitivamente, não nos cala.
Ali, num só ser, a vida vibrava em silêncio, dentro de si, intrínseca, só o coração, o espírito da vida, que esperava. Aquela mulher ainda existir, parecia um desatino de que ela mesma nem tivesse culpa.”
Guimarães Rosa. Nenhum, nenhuma. Primeiras estórias. 1. ad. São Paulo. Global, 2019
Começo essa reflexão pensando nas palavras do Ministro Gilmar Mendes ao se pronunciou em relação condenação da jovem Mariana Ferrer, ao ( DCM) Diário do Centro do Mundo – abre aspas: ” a Justiça deve ser um instrumento acolhedor, não de tortura e humilhação”, fecha aspas. Perfeito Gilmar. O que vimos foi algo diferente do papel de uma Justiça acolhedora. Diria que, algo tão absurdo que pela primeira vez, vimos o Estado concordar com algo estarrecedor.
Ora, com essa consciência é impossível nós mulheres, sentirmos segurança. Aqui, vemos uma clara “violação de direitos”, diria não só de direitos, mas de podermos expressar o nosso próprio valor. É inacreditável um protagonismo desse nível para construir a inocência de um réu.
Estamos decrescendo
Estamos decrescendo porque a forma da Justiça atuar de fato, não é essa. É vergonhoso. É uma situação vergonhosa por inúmeras situações vemo casos, talvez não tendo a mesma notoriedade deste, mas que pelo resultado, faz com muitas mulheres se calem por medo e vergonha do julgamento moral da sociedade, principalmente este, e depois por se sentirem desamparadas pela Justiça quando esta, lhes oferecer proteção. Neste caso, a vítima foi humilhada de diversas formas. Cadê uma conduta reta? Colocaram o réu no colo e fizeram dessa jovem o ‘algoz’ de um história sórdida, pelo menos assim foi a conclusão:
” Culpada!”
Uma guerra travada no campo feminino. A mulher não é o inimigo, ela é a vítima. É a mulher que em todos os espaços, sofre quando se vê assediada. Muitas vezes, responder por esse assédio é o que lhes garante uma vaga no emprego. Não é o caso dessa jovem. Isso serve para falar de toda falta de respeito muitas sofrem. Os homens usam de todos os tipos estrategias para construir uma condição que lhe seja favorável. E são nesses pequenos descuidos que eles aproveitam para obter algum tipo de vantagem. Por isso que, quando uma mulher tem coragem para falar o que foi vítima de alguma situação, é para ser ouvida e respeitada, não receber um tratamento com tantos predicados pejorativos.
Há muito tempo as feministas afirmam que “nenhuma roupa curta, calcinha ou decote avantajado ” é capaz de causar estupro em uma mulher. É o homem que a estupra, que violenta a mulher há séculos.
Por muito tempo se cultivou a idéia de que a mulher era culpada por sofrer um estupro. As próprias decisões, o silêncio as fez vítimas durante séculos de violência silenciada. Isso é um fracasso, um erro alimentando no imaginando humano e que vitimou inúmeras mulheres. Se você notar, existe uma dívida que jamais a história poderá pagar e apagar por conta de tanta violência contra a mulher. O estupro é um exemplo desse erros que devem ser amparado pela lei. E não o contrário, condenar a vítima. Lamentável!..
Os verdadeiros estupradores são os maiores culpados e ao mesmo tempo ” beneficiados” por esse tipo de violência que sempre foi silenciosa. Não importa se foi a Ana, a Maria, a Luísa ou mesmo Mariana Ferrer. O que essas mulheres precisam são de reparo a violenta que sofreram na condição que estavam.
Por muito tempo faltou consciência e a questão da própria proteção da lei em relação aos casos de estupro. Na década de 1980 por exemplo, uma menina de 14 anos podia viver com um homem de 30, constituir família com este. Um acontecimento que hoje é proibido porque é crime. Há 40 anos anos o Código penal tinha um entendimento acerca do caso. Claro, algumas mudanças foram feitas para tentar reparar os passível danos. Mas a maior preocupação e, a mais importante é oferecer proteção a vítima. Foi o que justamente o que frustrou essa jovem, porque ela esperava uma resposta que lhe fosse acolhedora
[…]
A condenação foi o que a assustou, não do ela , mas todos. O que vimos é o reflexo do privilégio que assusta. Pois vemos o nosso direito de dizer ” não ” sem nenhum valor, sem nenhum respeito. Gente, a mulher pode dizer NÃO a qualquer momento. Ela não é obrigada a ter relações sexuais com quem não queira. Ela pode flertar, demonstrar interessante, mas se no momento exato, não se sentir confortável ou mesmo o desejo de continuar, pode dizer ” não quero”, e o homem por sua vez, deve respeitar, porque se continuar é um estupro concebido. Foi o caso dessa moça. E aí, depois de todo esse desenrolar, se questiona o exemplo de Justiça que temos acolhedora. Afinal, ela não socorre aqueles que buscam os seus direitos? O que faltou neste caso ? Uma interpretação correta? É preciso aprimorar e não acrescentar valor aos erros.
” Quem não acolhe exclui. E quem é excluída fica à mercê do sofrimento, e de toda a espécie de tratamento que receber. Os mais ardilos possíveis. O combustível ideal para escolhas ” aparentemente ” construídas dentro de uma visão conservadora, deve levar conta a importância que esse assunto tem para as mulheres.
Mulher, não existe “estupro culposo “. Existe a distorção do direito que coopera para resultados trágicos e tristes como esse. Independente do tratamento NÃO SE CALE! Pois a consequência pode ser pior. Sem lamentação, levante a cabeça e lute!!
” O direito que se viola de uma, é o mesmo que fere o de todas “.
Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para as muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?”
Graciliano Ramos. Literatura brasileira. William Cereja e Thereza Cochar. 5ed reform. Atual. São Paulo,2013
Você precisa fazer login para comentar.