O Mundo do Sertão

“Diante de mim, as malhas amarelas

do mundo, Onça castanha e destemida.

No campo rubro, a Asma azul da vida

à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas

perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;

e a Marca negra esquerda inesquecida

corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,

que até o fim serei desnorteado,

que até no Parado o cego desespera,

O Cavalo castanho, na cornija,

tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,

ladrando entre as Esfinges e a Pantera…”

Ariano Suassuna, O Mundo do Sertão

https://www.culturagenial.com

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 17 de abril de 2020

Aqui morava um rei

Aqui morava um rei quando eu era menino

Vestia ouro e castanho no gibão,

Pedra da Sorte meu Destino,

Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino.

Quando ao som da viola e do bordão

Cantava com rouca, o Desatino,

O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia

Eu me vi, como cego sem meu guia

Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efigie me queima. Eu sou a presa.

Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa

Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

Ariano Suassuna, Aqui morava um rei

https://www.culturagenial.com.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, 17 de abril de 2020

Ariano no Exílio

Bem, após a morte de seu pai, a família de Ariano foi morar no interior do Nordeste. Lá Suassuna, acabou recebendo uma influência muito forte daquele lugar, tanto que em todo o seu trabalho, nota-se que ele explora a questão ligada a Tradição popular Brasileira, ou seja, Ariano demonstra muito esse “carinho “, pelo Sertão.

Os temas, bem como, os versos do escritor volta -se a questão que alimentar o imaginário popular. Ele pega aquilo que lhe foi um lugar seguro para viver durante a infância e trabalha isso de um jeito carinhoso. O encanto pela vida, embora tomada por situações conflitantes vividas pelo próprio Ariano devido a morte do pai, o leva a isto, a explorar sabiamente a história, a sua história com gestos de generosidade, ainda que dentro de um cenário perturbador, como disse, ocasionado pela perda trágica do pai. Então, conclue-se que o exílio para Ariano tenha significado a expressão trágica do mundo. Mas que, para nós, uma obra prima. Sem dúvida, Ariano Suassuna é um grande ganho a Literatura de modo geral. Eu só tenho que dizer: ” Bravo Ariano “. É bom que se leia a Biografia do autor para ficar por dentro de tudo.

Um forte abraço, Marii!

VEM comigo!

Imagem: Google.

Santarém, Pá 17 de abril de 2020

Pablo Neruda

Se você me esquecer

Eu quero que você saiba uma coisa

Você sabe como é isso

Se eu olhar para lua cristalina

No ramo vermelho do outono chegando

Se eu tocar perto do fogo

A cinza impalpável

ou o corpo enrugado do ramo

Tudo me leva a você

Como se tudo o que existe

Aromas, luzes, metais

Fossem pequenos barcos que navegam

em direção aquelas ilhas que esperam por mim

Bem agora, se pouco a pouco você deixar de me amar

Eu devo parar de te amar pouco a pouco

Se de repente você me esquecer

Não olhe para mim

Pois eu já devo ter esquecido você

Se você acha que isso é longo e louco

O vento das bandeiras

Que passa através de da minha vida

Você decide, Mas lembre-se, se você

Deixar me na costa do coração onde criei raízes

Nesse dia, nessa hora

Eu vou cruzar meus braços

E minhas raízes partirão para procurar outra terra.

Mas se, cada dia, cada hora

Você sentir que está destinada pra mim

Com sua doçura implacável

Se cada dia uma flor, escalar até seus lábios a minha

Procura

Lembre-se

Em mim todo esse fogo também existe

Em mim nada é extinguido ou esquecido

Meu amor se alimenta do seu amor

E enquanto você viver, estarei em seus braços

Pablo Neruda, Se você me esquecer

Tradução: Antonio Uila), pensador.com

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Uol

Santarém, Pá 17 de abril de 2020

Edgar Allan Poe

Nunca fui, na infância,

Como os outros

e nunca vi como os outros viam.

Minhas paixões eu não podia

tirar das fontes igual a eles;

e o coração de alegria

Tudo o que amei, amei sozinho.

Assim, na minha infância, na alba da tormentosa vida, ergueu-se

no bem, no mal, de cada abismo

e encadear-me o meu mistério.

Veio dos rios, veio da fonte,

Da rubra escarpa da montanha;

do sol, que todo me envolvia

Em outonais clarões dourados;

e do trovão, da tempestade,

daquela nuvem que se alterava,

só, no amplo azul do céu puríssimo.

Como um demônio, ante meus olhos.

Edgar Allan Poe, “Só “

https:// http://www.escritas.org

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: globo.com

Santarém, Pá 16 de abril 2020

A morte, o sol terrível

Mas eu enfrentei o Sol divino,

o Olhar sagrado em que a Pantera arde.

Saberei porque a teia do Destino

não houve quem cortasse ou desatasse.

Não serei orgulho nem covarde,

que o sangue se rebela ao som do Sino.

Verei o Jaguapardo e a luz da Tarde,

Pedra do Sonho e cetro do Divino.

Ela virá- Mulher- aflando as asas,

com o mosto da Romã, o sono, a Casa,

e há de sagrar-me a vista o Gavião.

Mas sei, também, que só assim verei

A coroa da Chama e Deus, meu Rei,

assediado em seu trono de Sertão.

Ariano Suassuna, A morte- O Sol do terrível.

https://www. Culturagenial.com

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 16 de abril 2020

Nascimento

Aqui, o Corvo azul da Suspeição

Apodrece nas Frutas violetas,

E a Febre escusa, a Rosa da infecção,

Canta aos Tigres de verde e malhas pretas.

Lá, no pelo de cobre do Alazão,

O Bilro de ouro fia a Lã vermelha.

Um Pio de metal é o Gavião

E suave é o focinho das Ovelhas

Aqui, o Lodo mancha o Gato Pardo:

A Lua estava esverdeada sai do Mangue

E apodrece, no medo, o Desbarato.

Lá, é fogo e limalha a Estrada esparsa:

O Sol da morte luz no sol do Sangue,

Mas cresce a Solidão e sonha a Garça.

Ariano Suassuna, Nascimento- O Exilio

https://www.culturagenial.com

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 16 de abril de 2020

A infância

Sem lei nem Rei, me vi arremessado

bem menino a um Planalto Pedregoso.

Cambaleando, cego, ao Sol do Acaso,

vi o mundo rugir. Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle, apontado,

vinha malhar seu corpo furioso.

Era o canto demente, sufocado,

rugindo nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho: e foi desperdiçado!

E veio o Sangue: o marco iluminado,

A luta extraviada e a minha grei!

Tudo apontava o Sol! Fiquei embaixo,

na Cadeia que estive e em que me acho,

a Sonhar e a cantar, sem lei nem Rei!

Ariano Suassuna, A Infância – O Exilio

https://www.culturagenial. com

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 16 de abril de 2020

Ariano Suassuna

Sob o sol sertanejo, onça castanha,

O Mundo é uma redoma de diamante.

Ao rubi dos teus peitos chamejantes

A luz do sangue o ventre fulvo banha.

Quem te dotou essa crueza estranha?

A vida passa, o sangue é doido instante!

E eu erro, só, no Campo malandante,

Pela Estrada sem pó desta Campanha.

O Gavião e a Cobra Cascavel

Espreitam dessa Pedra em que ti vagas,

ó Caravela branca, ó ruivo Pente!

E enquanto a Aranha tece, o fogo, o Véu

Vejo facas, anéis, punhais e adagas

atravessando os Ares reluzentes.

Ariano Suassuna, O Exilio

RB Arruda, via Facebook.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 16 de abril de 2020