” Porque passei pela prisão, eu compreendo as pessoas e os animais que estão doentes, pobres, que sofrem. Eu me identifico com eles. Sinto- me um deles.”
” A humildade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele. Ela não é considerada um ser autônoma, ela não é senão o que o homem decide que seja.
Se alguma vez, nos salões de um palácio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vaso no quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao passaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o passaro, o relogio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai- vos; embriagai- vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai- vos! Deslumbrai- vos.
Durante séculos, a sociedade nos ensinou que o sucesso de uma relação, de um casamento, ou do namoro só seria possível [se] a mulher tivesse total responsabilidade sobre este. Ainda que a mesma (vivesse em meio ao sofrimento). Diante da omissão e a falta de leis que protegesse os seus direitos, elas tinham que concordar com aquilo que aprendia com as mães. Para viver um casamento ” feliz “, ela tinha que renúnciar parte de seus direitos para não perder o amor desse homem. Era comum por exemplo, as as avós, as mães passar para as filhas que estas, tinham que abdicar de muita coisa para viver com os seus maridos. Se essa mulher sofresse maus-tratos, situações de violência, ela tinha que relevar. Era comum a mulher ouvir: ” minha filha, isso é cabeça quente do seu marido, logo passa”. Pois bem, dessa forma se fazia. O ponto de equilíbrio da relação era a mulher, ou seja, o que contava mesmo, era a maneira de como ela lidava com esse homem ( marido). Se submeter a tratamentos desrespeitosos, era a nossa missão. Afinal, cabia a nós o sucesso darelação. Hoje, a mulher ainda vive presa a esses ” resquícios do passado). Só que ela não é obrigada a consertar o casamento, nem o homem. Mulher conserta homem? Impossível. O sucesso da relação depende dos dois. Hoje o que vale é o quanto esse casal pode somar, “evoluir juntos’ e somar a vida a dois.
” A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando- se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí. E tem que ter nos próprios oprimidos, que se saibam ou comecem criticamente a saber-se oprimidos, um dos seus sujeitos.
Nenhuma pedagogia realmente libertadora pode ficar distante dos oprimidos, quer dizer, pode fazer deles seres desditados, objetos de um ” tratamento ” humanitarista, para tentar, através de exemplos retirados de entre os opressores, modelos para a sua ” promoção”. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção.
Paulo Freire. Pedagogia do oprimido. 71 ed. Rio de Janeiro/ São Paulo: paz e Terra, 2019
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