Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.

Meu órgão de morrer me predomina.

Estou sem eternidades.

Não posso mais saber quando amanheço ontem.

Está rengo de mim o amanhecer.

Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.

Atrás do acaso servem insetos.

Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.

Essas coisas me mudaram para cisco.

A minha independência tem algemas.

Manoel de Barros. Poesia Completa, São Paulo, 2011.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 10 de abril de 2020

Florbela Espanca

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,

E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,

E a minha rubra boca apaixonada

Teve a frescura pálida do linho

Embriagou-me o teu beijo como vinho

Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,

E a minha cabeleira desatada

Pos a teus pés a sombra dum caminho

Minhas pálpebras são cor de verbena

Eu tenho os olhos garços, sou morena

E para te encontrar foi que nasci…

Tem sido vida fora o meu desejo,

E agora, que te falo, que te vejo

Não sei se te encontrei, se te perdi…

Florbela Espanca, Realidade. In: Charneca em Flor ( volume de poema publicados , após sua morte, 1931)

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: via Facebook

Santarém, Pá 9 de abril de 2020

Fazer o bem deixa a alma leve

Fazer o bem é a maior forma de doar-se ao outro”.

Marii.

De todas as virtudes do homem, o que faz com que ele seja, diferente dos demais, é a forma de como ele procura ter uma conduta reta. Como age, como se preocupa com os outros. Como esse ser é capaz de agregar na vida de outras pessoas. Penso que talvez, o maior exemplo de doação, foi justamente aquele que no auge de nossas misérias, faz-nos lembrar de seus ensinamentos, Cristo.

ELE, sempre esteve diante de nossas inquietações, como um apaziguador. E por mais difícil que seja, o bem sempre é uma ação assertiva. A partir DELE veio o exemplo, a nós, cabe repetir os seus gestos. Quem se doa, sente-se capaz, um ser humano completo. Um ser humano novo, mas novo no sentido de ser resposta, de ter a capacidade de transformar, melhor, de fazer surgir a esperança no olhar de quem às vezes, nada tem.

[…]

Há quem diga que falar de coisas boas, pensar nisso como um resultado, pareça ingênuo. Todavia, digo que não, pois a única riquezas que tem valor, e um valor a qual não se compra, é aquela que vem de dentro pra fora. Vem coração, vem da alma, ou seja, daquilo que sobrevive a essa casca que nos envolve. E caso não tenha notado, essa é a única riqueza que ao dividir você não briga. Não é interessante? Todas as outras, elas trazem divisão. Aqui, ocorre o contrário, você multiplica.

[…]

Muitas pessoas têm um dom natural de fazer o bem. É o ser humano que se coloca no lugar do outro, que fala de modo sábio, que procura incentivar, e que procura também converter as dificuldades em grandeza, ou seja, usa isso para promover o encorajamento. É sempre aquela que diz, “acredite mais em você”, vamos “não sofra”, ” você vai super”, ou seja, é um jeito dócil de pensar e incentivar, de estimular o intelecto de quem precisa. É como se ao agir assim, nós também, pudéssemos saldar o débito com o nosso próprio Eu. É um bem que se faz é um bem que se sente.

Fazer o bem, é uma espécie de resiliência que não nos deixa adoecer. É maravilhoso você encontrar na vida, pessoas tão cheias de energia, e que procura libertar-nos, ou voltar acreditar na vida de uma maneira tão delicada.

Essas pessoas têm um jeito de despertar em nós, sonhos e esperanças até as tardias, porque dependo do que falam , mexem com as nossas emoções. Nos seduzem com o jeito de olhar a vida, de reagir positivamente porque plantam amor em nossos corações. Elas nos decifram .

[…]

Nos faz acreditar na vida!

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 9 de abril de 2020

Gregório de Matos

[…]

Se pois como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,

Livraria eu de diabólico azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

Gregório de Matos. Poemas escolhidos. Organização José Miguel Wisnik)

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Minas e o seu passado colonial.

Santarém, Pá 9 de abril de 2020

Gente Humilde (Maria Bethânia)

Tem certos dias

Em que penso em minha gente

E sinto assim todo o meu peito se apertar

Porque parece

Que acontece de repente

Feito um desejo de eu viver

Sem me notar

Igual a como

Quando eu passava no subúrbio

Eu muito bem

Vindo de trem de algum lugar

E aí me dá

Como uma inveja dessa gente

Que vai enfrente

Sem nem ter com quem contar…”

Maria Bethânia, Gente humilde

Compositores: Chico Buarque, Garoto, Vinicius de Moraes

Fonte: LyricFind

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 9 de abril de 2020

Murilo Mendes

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher

Deus de onde tudo deriva

E a circulação e o movimento infinito

Ainda não estamos habituado com o mundo

Nascer é muito cumprido.

Murilo Mendes.

Se quiser conhecer melhor a poesia de Murilo Mendes acessar este site:

http://www.revista.agulha. bom.br/Jorge.html

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 8 de abril de 2020

Jorge de Lima

” Era um cavalo todo feito em lavas

recoberto de brasas e de espinhos.

Pelas tardes amenas ele vinha

e lia o mesmo livro que eu goleava.

Depois lambia a página, e apagava

a memória dos versos mais doloridos;

então a escuridão cobria o livro,

e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia

na salsugem do livro subsistido

e transformando em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia

era a loucura do homem agoniado

em que o incubo cavalo se nutria.

Jorge de Lima

Imagem: Três anjos, de Jorge de Lima

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 8 de abril de 2020

Quando a vida pede um pouco mais de calma

Às vezes, a vida nos permite apreciar o tempo presente, esse que se vive com tanta pressa, de um jeito delicado. Não digo, necessariamente, ‘ delicado’, referindo-me a carinho. Não, carinho se tem pelas coisas que nos cativa. A vida nem sempre nos cativa, pelo contrário, muitas vezes, nos arrasta , intimida diante do que precisamos decifrar para compreender o verdadeiro sentido de estarmos vivos.

O processo de construção continua daquilo somos, é doloroso. Todos dias temos que nascer de novo. Temos que nos despir de alma se quisermos de fato, agregar algum valor, ao invés de ficar parado no tempo, revivendo acontecimentos que nos impede de progredir.

A vida sempre nos pega pelo avesso, sempre nos ensina pelo lado mais dolorido. É impressionante como tudo aquilo se precisa aprender, ela é tão sincera, tão franca, tão cara limpa que nos encanta. Você já viu pessoas assim, tão inteiras, donas de si mesmas? São pessoas que foram sendo costuradas pelos seus avessos, ou seja, de ” dentro pra fora”. São pessoas que aprenderam com suas dores, e não usaram de subterfúgios para se esconder.

Quando essas pessoas vivem os seus dramas, elas escolhem calar, ainda que por dentro, o silêncio seja o seu grito mais forte. É maravilhoso encontrar um ser humano tão grande, tão completo. Gente que nos é um exemplo, de força e superação,porque nos ensina a querer percorrer os mesmos caminhos, para conseguir também alcançar tal fortaleza.

Quem aprende a se decifrar, consegue lidar melhor com os seus conflitos. Sabem se colocar no lugar do outro. Claro, que muitos, em meios aos questionamentos da vida são resilentes, não se dobram. Todavia, os que se deixam aprender, sempre tem o que agregar.

De alguma maneira, porque sabem que o valor de uma envergadura saudável, é capaz de muito na vida de uma pessoa. E por mais dolorido que seja, a vida delas foram sendo construídas dentro de uma calmaria, que não nasceu de maneira repentina. Não, tudo vem de um contexto, onde elas não puderam se esconder, como tanta outras fazem. Não se anularam diante de suas fragilidades, mas souberam fazer das lágrimas verdadeiras ‘ gotas de orvalho ‘ e assim, cativar dentro de si, a poesia que há nos dias, mesmos os mais tristes .

[…]

Aprenderam a considerar o valor de ser verdadeiros consigo mesmo, é uma dádiva. E embora, muitos não consiga entender, a vida precisa desse momento de calmaria. É quando se tem um pouco mais ‘de alma…’. A alma é necessária para se construir a calma. Tem gente que não. Dependo do que aconteça, vira carrasco de si. A irritabilidade, a arrogância faz com que se esquivem de coisas tão importantes para o ser humano, que é justamente esse aprender a se relacionar consigo.

É interessante mergulhar em nós mesmos, aprender a contemplar a beleza que há no silêncio. Não ser escravo das emoções, agir sem pensar. Isso é o que nos diferencia dos demais, é esse poder de negociar, ter flexibilidade para obter algo no momento certo, respeitando o movimento da vida. De fato, é o que nos torna pessoas melhores…

…eterno aprendizes!