E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio; e de declínio Em declínio, como a gula de uma fera, Quis ver o que era, e quando vi o que era, Vi que era pó, vi que era esterquilínio! Augusto dos Anjos

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Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não teve uma manha:

Ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a o outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

Que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

Para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO.

Soneto de Amor

Maior amor nem mais estranho existe

Que o meu – que não sossega a coisa amada

E quando a sente alegre, fica triste,

E se a vê descontente, dá risada.

Vinicius de Moraes.

” Eu era um tipo alegre,

mas que fazer da alegria,

quando a dor é um rio sem vau?”

Maiakovski.

Inaugure um novo tempo dentro de si

Quero Gestar o Novo.

Quero acreditar que é possível negociar com o tempo, com o medo, e tudo aquilo que ainda não conheço .

Com o que me desafia, e mostra o quanto posso mergulhar nas profundezas do imaginário. Sorrir, sentir a vida de modo, que ela permita -me decifrar os labirintos aos quais ainda me sinto presa.

Ah! Como eu quero.

Quero, fechar os olhos e acreditar nos pequenos milagres…

Quero ver a água nascendo…

Sentir o cheiro de mato fresco,

O vento batendo levemente no rosto…

Ouvir o canto dos pássaros e, estar presente com estes, em cada por do sol.

Quero a certeza das manhãs,

Ouvir a chuva fazendo-me o convite para molhar a pontinhas dos dedos lá fora.

Ah!…eu quero

Sentir o gosto do café recém preparado.

Cheiro de bolo de milho perfumado o ambiente…

Um beijo roubado,

Um sorriso,

Um abraço,

Um olhar sem palavras…

Quero!..

QUERO TUDO!

Quero conhecer as delícias e as dores de modo, a não “desviar o rumo do rio”. Um rio silencioso que corre dentro de mim…

Que inunda os meus pensamentos,

Acalma,

Silencia o meu ser…

Indecifrável, intenso…gigantesco!

Um rio é sempre, um rio,

Independente da adversidade.

Um rio sabe SER GRANDE.

Sabe como se manter vivo no tempo. Por isso, quero levar comigo cada fatia, cada fragmento, cada gota …

Ah, irei negociar!…

Que não fique preso, nem mesmo entre as pedras, NADA. Um único grão de areia…

Serei inteira, e não um punhado de lembranças na história.

Serei a própria história,

Uma janela que se abre

Vem!…

Deixa te mostrar o rio ,

Veja com o é longa a sua travessia.

Marii Freire.

Os manequins

Os sonhos cobrem-se de pós.

Um último esforço de concentração

morre no meu peito de homem enforcado.

Tenho no meu quarto manequins concundas

onde me reproduzo

e me contemplo em silêncio.

João Cabral de Melo Neto.