A bondade se veste de simplicidade

Por vezes, a vida nos surpreende quando coloca diante de nós, pessoas simples, que parece sol diante do milagre da criação. É isso mesmo, não há exagero em minhas palavras. Há coerência diante daquilo que falo, porque refiro-me a pessoas que você olha para elas, e de um jeito inexplicável, sente que as mesmas, são inteiras, suave no seu modo de ser e falar. Como se costuma dizer ‘ um ser humano completo ‘. Pois aprendeu com a vida a calcular valor não daquilo que você carrega no bolso, mas do que você trás no coração.

São pessoas que sabem doar-se de um jeito único. Elas estão sempre nos dizendo ou nos lembrando da nossa força, da nossa capacidade de superar os problemas. Pode-se dizer que são seres humanos incríveis. Humildes por se desfazer de seus excessos, por saber negociar com a vida, ali mesmo nos momentos mais conflitantes, eles não vivem a queixar-se de estresse, pelo contrário, são bastantes sóbrios diante daquilo que lhes custa caro. Já reparou como isso é bonito? Sim, são essas pessoas que pouco a pouco nos remendar, nos ajuda a manter o pé no chão. São alegres, resilientes porque dentre outras coisas, aprenderam a lidar com os seus próprios conflitos. São pessoas que valem a pena conhecer.

Nos seres humanos, somos assim, uns mais tensos, outros equilibrado, que fique claro – equilibrados no sentido de saber direcionar a sua força rumo a coisas construtivas e, por que não dizer? De fazer com que se possa também, despertar e assim, se aprimorar. Sim, são essas pessoas que precisamos ter por perto. São ” anjos” disfarçados de gente? Diria que sim, acredito que a bondade tem muitas formas de aparecer em nossas vidas.

É sempre muito gratificante encontrar pessoas que em nossa caminhada tenha essa capacidade de nos transformar, de fazer renascer em nós, sentimentos que de alguma forma, possa nos lembrar de quem somos, os valores que temos e carregamos. Mas, que vezes, a vida nos faz esquecer. São esses seres que chegam de repente, fazendo com que se possa reconhecer a grandeza daquilo que somos, assim como, perceber as pequenas dádivas nesse processo contínuo que é a vida. Aliás, a vida é uma dádiva…quando Se chega, nem sempre a partida. Porém, são essas pessoas que chegam é fazem a diferença.

Marii Freire Pereira

Imagem: amenteemaravilhpsa.com.br

Santarém, Pá 16 de maio de 2020

Franz Kafka

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-elas los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos.Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivemos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimentos, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdermos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz medito na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, cantantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

Franz Kafka, Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro. ( in Diário, 1910.

https://www.citador.pt

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 16 de maio de 2020

Castro Alves

” Ontem plena liberdade,

A vontade por poder…

Hoje são livres p’ra ra morrer…

Prende- os a mesma corrente

_Férrea, lúgubre serpente _

Nas roscas da escravidão.

E assim roubados à morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoite…Irrisão…”

Castro Alves. Fragmento de O navio negreiro _ tragédia no mar. Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar. Atual. São Paulo, 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 16 maio de 2020

Carlos Drummond de Andrade

Até hoje perplexo

ante o que murchou

e não eram pétalas.

De como este banco

não reteve forma,

cor ou lembrança.

Nem esta árvore

balança o galho

que balançava.

Tudo foi breve

e definitivo.

Eis está gravado

não no ar, em mim,

que por minha vez

escrevo, dissipo.

Carlos Drummond de Andrade. Ontem. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. São Paulo, 1945

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 16 de maio de 2020

Sabedoria

Sabedoria é enxergar os acontecimentos de forma positiva. É saber que mesmo diante das situações de tensão e contrariedade, a vida sempre tenta nos mostrar através de formas duras que vale a pena lutar, reagir, aprender para reescrever a nossa história. Que sim, nós podemos aprender com os avessos, com as contrariedades…com os dissabores. Se isso te alivia, a dor se dedica ser igual para todos. Nós podemos até ter realidades diferentes. Todavia, a dor, o choro, os ciúmes, são iguais para todos.

Alguns dizem: eu não tenho ciúmes, não tenho mágoa, não tenho inveja. É verdade. Tem gente que se esforça para ser refinado. Mas, exagera justamente quando decepciona.

Enxergar a vida com sabedoria significa, pensar, repensar, ter paciência, mesmo quando se decepciona. Chorar, Chorar a vida é não desistir. É compreender que muitas vezes, tudo acontece de maneira errada, justamente para enxergar o valor daquilo que numa condição favorável jamais veríamos. E não veríamos por uma razão simples, que é a falta de estímulo. O emocional por exemplo, só responde quando confrontado. Quando se precisa passar por uma escolha é que se pesa a questão.

[…]

Para muitas pessoas, o termo mudança as asfixia, porque não têm a capacidade de compreender que tudo isso constrói, ou seja, elas simplesmente, não reconhecem que numa mudança pode haver transformações positivas, oportunidades talvez, por que não dizer? Claro, a vida sempre pode ser construída de diferentes aspectos.

Há os que lutam, assim como, há aqueles que se reclicam, para melhorar cada vez mais. É no aprendizado do dia a dia, que somos formatados, que aprendemos superar as nossas crises. O momento macro da vida, dar-se nesse ‘suportar’ as dores, silenciar como um gesto de tolerância, e ganhar com isso. Manter o autocontrole é sem dúvida, expressar sabedoria.

Sejamos sábios, sejamos gratos a toda forma de aprendizado. Uns duram minutos, já outros, uma vida inteira. Mas que bom que a vida não pára, nem o nosso processo de superação.

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 15 de maio de 2020

Carlos Drummond de Andrade

“Não faça versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia

Diante dela, a vida é um sol estatístico,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não

[ contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à

efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentaram a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixe-a em paz.

O canto não é movimento das máquinas nem o segredo

das casas.

Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas

[junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia ( não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir…”

Carlos Drummond de Andrade. Procura da poesia. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. São Paulo, 1945

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 15 de maio de 2020

João Gilberto

” Se você disse que eu desafino, amor

Saiba que isto em mim provoca imensa dor

Só privilegiados têm ouvido igual ao seu

Eu possuo apenas o que Deus me deu.

Se você insiste em classificar

Meu comportamento de anti-musical

Eu mesmo mentindo devo argumentar

Que isto é Bossa Nova, que isto é muito natural

O que você não sabe, nem sequer presente

É que os desafinados também têm um coração.

Fotografei você na minha Roleiflex

Revelou- se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor

Ele é o meu maior maior do que você pode encontrar…”

João Gilberto, Desafinado

Compositores: Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça

Letras.mus.com. br

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Google

Santarém, Pá 14 de maio de 2020

Erros: todo mundo os comete, inclusive você

Para voar devemos primeiro compreender cada etapa das provas que a vida nos impõe. E nós, começamos compreender isso ainda muito verdinhos, ou seja, criança.

Começamos ralando os joelhos, pouco a pouco o primeiro passo. Depois calculamos até aonde podemos ir sem medo. Claro, precisamos nos resguardar, uma queda é algo sempre muito desagradável. Todavia, a vida começa assim, passo por passo, degrau por degrau e, esses ritos vão se repetindo a vida toda.

Na fase adulta, já se abre as asas, tem-se a capacidade acolher idéias novas, ou seja, nessa fase, surge as inspirações ( o que faz bem aos nossos sentimentos), depois os possíveis benefícios deles e, no finalzinho, se prepara para encarar aquilo nos faz crescer, os erros. Quem não erra? Todos nós. Eu erro muito comigo mesma. E você erra também ou devido a confiança que você tem em si mesmo, isso acontece rara vezes? Errar é humano, como diz o ditado popular. Mas ter condições de superar os erros, faz de nós pessoas marcantes.

É comum as pessoas enganar, assim como, também, às vezes por conta de posicionamentos, extremistas conosco, a gente se engane. Claro, todo mundo erra. Em geralmente, o ser humano errar mais consigo, do que com os outros. Principalmente, porque imagina coisas que são inconsistentes, e que o leva a um estado de frustração.

Quando a pessoa erra com ela própria, o estado emocional fica debilitado. Parece estranho dizer, mas o estresse é uma resposta imediata. Na verdade, isso é uma expressão genuína do nosso estado de espírito. Todavia, se erramos com outras pessoas tentando tirar algum proveito disso, enganamos a nós mesmo, porque nesse caso, se comete o autoengano. Tem pessoas que têm consciência do próprio ato, mas perseguem os seus objetivos assim mesmo.

Muitas pessoas ao fazerem outras sofrerem, elas também sofrem, outras não. Há pessoas que simplesmente não apresentam essa característica que é a empatia, que nada mais significa do que trocar de papel, é ‘ficar no lugar do outro’, sofrer e assim conseguir reconhecer a sua parcela de culpa. Há pessoas que mesmo diante dos seus próprios abismos, não demonstram qualquer manifestação nesse sentido. Por outro lado, há essa riqueza que se manifesta de forma genuína, e reconhece tudo aquilo que faz. Gente que chega e diz ” perdoe-me “. Acredito que essas manifestações curativas deveriam ser aplicadas com mais frequência, porque além de serem agradáveis, faz com se estabeleça um fator importante na relação entre as pessoas, que é a confiança.

Confiar numa pessoa é bom, mas o caminho que leva a isto, advém de um elo. Se o erro é meu, e tenho estrutura para reconhecer esse defeito, chego e demonstro uma postura de que corrigir aquilo é importante pra mim, ótimo. Pois expressa uma característica de valor. É um gesto ligado ao meu caráter, portanto superar tal falha me fará bem, dentre outras coisas, fará com que eu possa acabar me sentindo melhor como pessoa.

O bonito entre essas duas atitudes (erro e acerto), é que saber interpretá-los da maneira correta, transforma a nossa imagem em símbolo de pessoa digna. Isso é muito bom. Diria que nesse caso, até é permitido o vôo livre…porque se percebe que estamos diante de um ser humano preparado.

Isso é importante a cada um de nós, porque o aprendizado fica. E não significa que não se possa errar novamente. Vamos certamente. Todavia a caracteristica que salta os olhos nesse caso é: ter a humildade de reconhecer aquilo que nos faz fracos, falhos como pessoas. Acredite, nunca deixaremos de errar, só quando partimos dessa para um plano superior, mas aí nesse caso,…vira-se anjos! O aprendizado básico é só aqui embaixo.

Bem, o que deixo pra você: os degraus sempre lhes serão difíceis até que você consiga depois de muitas quedas, correr, rir de suas próprias dores, escalar…e finalmente, voar! O segredo é abrir bem as asas, corrigir o que for possível, ter paciência, segurança, inventar um riso…

…quando perceber estará …voando. Os erros servem para isso, para nos impulsar rumo ao melhor.

Marii Freire Pereira

Imagem: Google

Santarém, Pá 14 de maio de 2020

Clarice Lispector

” Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Na rua vazia as pedras vibravam de calor _ a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava.

Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que apoiava conforme a mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas…”

Clarice Lispector, Tentação.

https://escolaeducação.com.br.

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 14 de maio de 2020

” E era o sol que os longes deslumbrava

Igual a tanto sol que me fugiu..”

Florbela Espanca. Sóror Saudade, 1923.

Criação: Marii Freire

Santarém, Pá 14 de maio de 2020