Central do Brasil é um filme ” domesticado”. Eu poderia qualificar como excelente, o que não deixa de ser, porém, a palavra ” domesticado”, o define melhor. Na verdade, essa história relata a continuidade de muitas outras que consagraram o comportamento do brasileiro.
Fernanda Montenegro como sempre interpretou divinamente o papel de uma professora “frustrada ” com a vida, mas não menos honesta como o que já estamos acostumados a ouvir relatos. Ora, imagine, um país com vários contrastes, onde a desonestidade é um tema bastante presente nas relações, porque mostra o ‘ jeitinho brasileiro ‘, justificando a maneira de agir da população/ comportamento das pessoas. Isso, vimos mudar no decorrer do filme quando, o personagem da Fernanda deixou a idéia do dinheiro de lado e acolheu por afeição, a história do garoto. Talvez, por entender a necessidade que havia nela.
O fato é que a história narra situações de um país com uma população gigantesca, com caras e olhos diferenciados ( migrantes), dispersos entre si, porém ligados pelo passado ( sentimento de pertença), reivindicando os seus próprios direitos, e o mais importante que é a busca entre si, a consciência, o que une essas pessoas, e no fundo integra esse sentimento de família ( afetividade). O filme retrata muito bem nas cenas que vimos, são pessoas ‘analfabetas’, mas que têm o cuidado de manter essa relação viva através das cartas, que Ferndinha escrevia, mas não fazia com que as mesmas cheguem aos seus respectivos destinatários “malandragem “, como solução precária do povo brasileiro.
É o reflexo da sociedade na qual estamos inseridos. É por esse motivo que atribui a qualificação de ‘ domesticado’, porque relembra essa construção do lar, ou seja, algo contínuo. Além disso, existe outro fator importante que no caso, é o abandono. O abandono é uma situação tratada de forma sutil, mas de denuncia a falta de identificação de um lar composto por pai e mãe. Há um lar constituído por uma mãe e um filho, ou seja, o pai transforma-se numa figura ausente, forçando a mulher a assumir tal conduta, o que inclusive é comum hoje essa forma de entidade familiar.
Pela riqueza retratada no filme, vê-se os contrastes a ser considerados. Há muitas outras realidades que provocam a continuidade do que vivemos, como por exemplo- as desigualdades. O ambiente social, a questão da religiosidade, que sabemos que é uma forma dessa gente se sentir fortalecida. O empobrecimento moral e material. Muita coisa que nos une nesse imenso cordão umbilical, mas que de certa forma nos sustenta e mantém unidos conforme as nossas necessidades. Acredito O limite dar-se em relação a dispensa de coisas que não agrega valor a nossa vida. Todavia, o filme é muito bom. Caso não tenha assistido, aproveite para ler um pouco do Brasil nas telonas.
Acredito que o filme é um apelo decorrente de nossas ações.
“Há quem diga que a única coisa que causa realmente inveja numa pessoa é a felicidade. Ninguém suporta felicidade em excesso. Riso em excesso, fechar de olhos em excesso…”
Bem, de minha parte, procure não sentir inveja. Há sempre uma razão por trás do meu sorriso. Eu não aprendi a sorrir com tanta facilidade. Todas as curvas de meus lábios surgiram depois de muita negociação comigo mesma.
Cedo tive que aprender a recuperar o ânimo, tomar decisões que nem todo mundo estava preparado para realizá-las. Se lamento? Não. A vida tem que ser construída em cima de verdades. Imagino que o sucesso nascido em cima de idéias mentirosas, não perdure por muito tempo.
Existe uma maxima que diz : ” O que não mata engorda”. Aprendi o segredo da felicidade com uns quilos a mais. Tive épocas em que fui feliz e outras que tive que superar as minhas próprias aflições.
Na vida é assim, um dia você está por cima, e no outro, você sorrir de cabeça para baixo. E o que importa nosso tudo? A maneira de como você olha para o horizonte!…
Na vida, todos nós temos que aprender andar, antes de correr
[…]
Caminhei, escalei…e hoje alcanço as estrelas sem tirar o pé do chão. Qual a importância dessa forma poética de falar da vida? Sabedoria.
Com os anos, aprendemos a importância de filosofar, de ouvir os nossos ruídos em silêncio. Por isso, aprendemos que para ser grande, devemos buscar inspiração nos fatos que damos importância, nos fatos da vida, da ” nossa vida”. Só eles conversam conosco. Não há nada mais ardil do que felicidade forçada. Mas, o sorriso que vem do nosso estado psicológico, esse que surge quando estamos nos sentindo privilegiados, ah!.. sua resposta é influenciável.
“Sorte de quem sorrir e deixa as pessoas muda por conta de tanta felicidade.”
Algumas das minhas aventuras antigas; até agora evitava fazê-lo, aliás com um certo desassossego. Porém, agora, quando as evocou e desejo mesmo anotá-las, agora vou tirar a prova: será possível sermos francos é sinceros, pelo menos com nós próprios é dizermos toda a verdade?”
Luís de Camões. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1976. p.123)
Renato Russo:
Monte Castelo ( Primeira epístola de são Paulo aos coríntios, 13.1 ,2 ,3. Bíblia Sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1962. Parte 2, p. 201)
Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar. São Paulo, 2013
” Nenhum homem que tenha vivido conhece mais sobre a vida depois da morte que eu e você. Toda religião simplesmente desenvolveu-se com base no medo, ganância, imaginação e poesia.”
Você precisa fazer login para comentar.