Carlos Drummond de Andrade

[…]

A moldura deste retrato

em vão prende suas personagens.

Estão ali voluntariamente,

saberiam – se preciso- voar.

Poderiam sutizar-se

no claro- escuro do salão,

ir morar no fundo dos móveis

ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas

e papéis, escalas compridas.

Quem sabe a malícia das coisas,

quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,

ele me fita e se contempla

nos meus olhos empoeirados.

E no cristal se multiplicam

os parentes mortos e vivos.

Já não distingo os que se foram

dos que restam. Percebo apenas

a estranha idéia de família

viajando através da carne.

Carlos Drummond de Andrade. Retrato de família. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. São Paulo, 1945

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem: Pinterest. plus.google.com

Santarém, 3 de fevereiro de 2021

Publicado por VEM comigo!

Bacharela em direito, Pós graduada em Direito Penal e Processo Penal.

3 comentários em “Carlos Drummond de Andrade

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