Diálogo entre Clarice Lispector e Virginia Woolf

[…] ” Assim, naturalmente “, escreveu Berry Flanders enfiando os saltos dos sapatos mais fundo na areia, ” não havia nada a fazer senão partir.”

Brotando lentamente do bico da sua pena de ouro, a pálida tinha azul dissolveu o ponto final; pois sua caneta parou ali; seus olhos tornaram-se fixos, lágrimas inundaram- nos devagar. A baía inteira ioscilou; o fato cambaleou; e ela teve a ilusão de que o mastro do pequeno iate do sr. Connor se inclinava, como uma vela de cera ao sol. A sra. Flanders festejou depressa. Acidentes eram coisas terríveis. Piscou de novo. O monstro estava ereto: as ondas, regulares; o farol, em pé; mas o pingo de tinta se espalhara.

_ …nada a fazer senão partir _

_ Bem, se Jacob não quer brincar _ ( a sombra de Archer, seu Filho mais velho, caiu sobre o papel, e parecia azul na areia, ela sentiu frio. – já era três de setembro) – se Jacob não quer brincar… _ Que virão horrível! Deveria estar ficando tarde.

Eram assim as cartas de Betty Flanders ao Capitão Barfoot – cartas de muitas páginas, manchadas de lágrimas. Scarborough fica a setecentas milhas da Cornualha: o Capitão Barfoot está em Scarborough: Seabrook está morto. Lágrimas fizeram balouçar em ondas rubras todas as dálias do Jardim e reverbear em seus olhos a estudar de vidro, e enfeitavam a cozinha de setas luminosas, e fizeram a Sra. Jarvis, esposa do reitor, pensar, na igreja, enquanto os hinos ressiavsm e a Sra. Flanders se fabricava sobre a cabeça dos filhos pequenos, que o casamento é uma fortaleza, e que viúvas vagueiam solitárias por campos abertos, juntando pedras, resmungando paga é douradas, sozinhas, desprotegidas, pobres criaturas. […]

( Virginia Woolf. O quarto de Jacob. Trad. de Lya Luft. 2.ed. Rio de Janeiro: Novo Fronteira, 2003. p.7- 8)

CLARICE LISPECTOR

Em A Paixão segundo G.H, a protagonista é uma escultora que mora num apartamento de cobertura no Rio. Nesse momento, ela atravessava a crise de uma separação amorosa e, após demitir a empregada, resolve ir ao quarto da moça para fazer uma limpeza. Eis que surge atrás da porta uma barata. O inseto desencadeia o processo epifânico vivido pela personagem.

Fragmento que segue:

Estou adiando. Sei que tudo o que estou falando é só para adiar – adiar o momento em que terei que começar a dizer, sabendo que nada mais me resta a dizer. Estou adiando o meu silêncio. A vida toda adiei o silêncio? mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa começar a falar.

O suor agora recomeçara, eu estava agora suada da cabeça aos pés, os dedos gelados dos pés escorregavam dentro do chinelo, e a raiz de meus cabelos amolecida àquela coisa viscosa que era o meu suor novo…”

Clarice Lispector. A paixão segundo G. H. Edição organizada por Benedito Nunes. São Paulo: Allan XX/ Scipione Cultural, 1997. p 15 e 106 – 107)

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Cornualha, Inglaterra/ José Moya/ AGE Fotostock/ Grupo Keystone. arquivo pessoal.

Santarém, Pá 17 de Julho de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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