Clarice Lispector

Quero escrever o borrão vermelho de sangue

com as gotas e coágulos pingando de dentro para fora.

Quero escrever amarelo-ouro

com raios de translucidez.

Que não me entenderam

Pouco- se-me-dá.

Nada tenho a perder.

Jogo tudo na violência

que sempre me povoou,

O grito áspero e agudo e prolongado,

O grito que eu,

Por falso respeito humano,

não dei.

Mas aqui vai o meu berro

me rasgando as profundas entranhas

de onde brota o estertor ambicionado.

Que abraçar o mundo

com o terremoto causado pelo grito.

O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções

sem o uso abusivo da palavra.

Só me resta ficar nua:

nada tenho mais a perder.

Clarice Lispector. Quero Escrever o Botão Vermelho de Sangue

https:// escritas.org

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: arquivo pessoal

Santarém, Pá 17 de Julho de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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