Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando de dentro para fora.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entenderam
Pouco- se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
O grito áspero e agudo e prolongado,
O grito que eu,
Por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Que abraçar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
Clarice Lispector. Quero Escrever o Botão Vermelho de Sangue
https:// escritas.org
Marii Freire Pereira
VEM comigo!
Imagem: arquivo pessoal
Santarém, Pá 17 de Julho de 2020

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