Não se Mate

Carlos, sossega, o amor

é isso que você está vendo:

hoje beija, amanhã não beija

depois da manhã é domingo

e segunda-feira ninguém sabe

o que será.

Inútil você resistir

ou mesmo suicidar-se.

Não se mate, oh não se mate,

reserva-se todo para

as bodas que ninguém sabe

quando virão,

se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,

A noite passou em você,

e os recalques se sublimando,

lá dentro um barulho inefável,

rezas,

vitrolas,

santos que se persignam,

anúncios do melhor sabão,

barulho que ninguém sabe

de quê, praquê.

Entretanto você caminha

melancólico e vertical.

Você é a palmeira, você é o grito

que ninguém ouviu no teatro

e as luzes todas se apagam.

O amor no escuro, não, no claro,

é sempre triste, meu filho, Carlos,

mas não diga nada a ninguém,

ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade, Não se Mate. ( Textos Selecionados, literatura Comentada)

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 20 de abril de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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