Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto

No então a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho desta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado

Eu deixarei…tu irás e encontrarás a tua face em outra face

Teus dedos enlação outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite e ouvi a tua fala amorosa

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço

E eu te trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir

É todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes, ausência, Rio de Janeiro, 1935

http://www.viniciusdemoraes.com.br

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 19 de abril de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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