Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito e aça à dor vivente,
Não derramam por nem uma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impurra
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poente caminheiro
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade – e dessas sombras
Que eu sentia valer nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe! Pobre coitada
Que por minha tristeza te definha!
Que meu pai…de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endurecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Álvares de Azevedo.
Fonte: Literatura brasileira
Imagem, Biblioteca de vetores Girassol.

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