Fernando Pessoa

” Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;

Assisto a minha paisagem;

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Nota à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: Fui eu?”

Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa. Não sei quantas almas tenho.

https://brasilescola.uol.br

Imagem: pinterest/Architectural Digest

Santarém, Pá 28 de abril de 2022

Publicado por VEM comigo!

Bacharela em direito, Pós- graduada em Direito Penal e Processo Penal.

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