Carlos Drummond de Andrade

O último dia do ano

não é o último dia do tempo.

Outros dias virão

e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,

farás viagens e tantas celebrações

de aniversário, formatura, promoção, glória, doce mote com

sintonia e coral,

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,

os irreparáveis uivos

do lobo, na solidão.

O último dia do tempo

não é o último dia de tudo.

Fica sempre uma franja devida

onde se sentam dois homens .

Um homem e seu contrário,

uma mulher e seu pé,

um corpo e sua memória,

um olho e seu brilho,

uma voz e seu eco,

e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,

mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,

e de copo na mão

esperar amanhecer .

O recurso de se embriagar

O recurso da dança e do grito,

o recurso da bola colorida,

o recurso de Kant e da poesia,

todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gasto resolva-se em espuma.

Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.

A boca está entupida de vida.

A vtda escorre da boca,

lambuza as mãos, a calçada.

A vida é égorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade. Passagem do ano. A Rosa do Povo. Círculo do Livro. São Paulo, 1945.

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem ( Autoral)

Homenagem a Carlos Drummond de Andrade/ Copacabana/Rio de Janeiro

Santarém, Pá 3 de Julho de 2021

Publicado por VEM comigo!

Bacharela em direito, Pós graduada em Direito Penal e Processo Penal.

6 comentários em “Carlos Drummond de Andrade

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