Carlos Drummond de Andrade

Este é tempo de divisas,

tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,

obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.

E o vestido vermelho

vermelho

cobre a nudez do amor,

ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.

Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados

vem um sopro que cresta as faces

e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende -se mas não elimina

o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,

anéis, pérolas, cigarros, lanternas,

são partes mais íntimas,

a pulsação, o fogo, o ofego,

e o ar da noite é o estritamente necessário

para continuar, e continuamos.

Carlos Drummond de Andrade. Nosso tempo II. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. 1945.

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem: Pinterest. Tire a Bunda do Sofá

Santarém, Pá 9 de fevereiro de 2021

Publicado por VEM comigo!

Bacharela em direito, Pós graduada em Direito Penal e Processo Penal.

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