Carlos Drummond de Andrade

[…]

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera

bem antes sua vaga pedraria?

Mas quando me perdi, se estou perdido

antes de haver nascido

e me nasci voltado à perda

de frutos que nao tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.

De tantas perdas uma clara via

por certo se abriria

de mim a mim, estela fria.

As árvores lá fora se meditam.

O inverno é quente em mim, que o estou berçando,

e em mim vai derretendo

este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos

ao ouvir de alguém sem rosto e sem justiça,

ao ouvido do muro,

ao liso ouvido gotejante

de um pisca que não sabe o tempo, e fia

seu tapete de água, distraída”.

Carlos Drummond de Andrade. Elegia. Editora Nova Cultural. Textos publicados sob licença de Pedro Augusto Graña Drummond. São Paulo, 1990

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem: Pinterest. Flickr/ 20220 Pyrus Calleryana

Santarém, Pá 21 de janeiro de 2021

Publicado por VEM comigo!

Bacharela em direito, Pós graduada em Direito Penal e Processo Penal.

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