Diabo
[…] entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama é ela vossa?
Frade
Por minha la tenho eu
e sempre a tive de meu.
Diabo
Fizeste bem, que é fermosa.
E não vos punham lá grosa
no vossa conveniência santo?
Frade
E eles fazem outro tanto!..
Diabo
Que cousa tão pretenciosa!
Entrai, padre reverendo!
Frade
Para onde leva os gente?
Diabo
Pera aquele fogo ardente,
Qir nom tem este vivendo.
Frade
Juro a Deus que nom te entendo!
E este hábito nom me val?
Diabo
Gentil padre que nom te entendo!
a BerZabu vos encomendo!
Frade
Ah corpo de Deus consagrado!
Pela fé de Jesus Cristo
que eu nom posso entender isto!
Eu hei de ser condenado?!
Um padre tão namorado
e tanto dado virtude!
Assim Deus me dê saúde!
que eu estou maravilhado!
Diabo
Nom cureis de mais detença
Embarcarei e partiremos.
Tomareis um par de remos.
Frade
Nom ficou isso na avença.
Diabo
Pois dada está já a sentença!
[…]
Gil Vicente. fragmento do Auto da barca do inferno. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996.n.80-2. Notas de Ivan Teixeira. Literatura brasileira:William Cereja e Thereza Cochar. 5ed.reform. Atual. São Paulo, 2013
Marii Freire Pereira
https://pensamentos.me/ VEM comigo!
Imagem: São Miguel pesando almas, em representação do século XIII.
Santarém, Pá 4 de janeiro de 2021

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