Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser guache na vida.

As casas espiam os homem

Que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houve tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste

se sábias que eu não Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade. Poema de Sete Faces. Textos publicados sob licença de Pedro Augusto Graña Drummond. Nova Cultural. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1990

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem ( Arquivo pessoal)

Santarém, Pá 2 de janeiro de 2021

Publicado por VEM comigo!

Bacharela em direito, Pós graduada em Direito Penal e Processo Penal.

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