Guimarães Rosa

“Essa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em toda de casa. Era homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento, e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, de fazer nojo. Falavam de comia a quanta imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre as suas grossas pernas, no chão, mais alfaces; tirantes que, a carne, essa, legítima de vaca, cozida. Demais bastasse era com cerveja, que não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedua: – ” Irivalíni, bosonha outra garrafa, é para o cavalo…” Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me gratificando. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir meu nome direto. Desfeita ou não ofensa, não sou o de perdoar – a nenhum de nenhuma. “

Guimarães Rosa. O Cavalo que bebia cerveja. Primeiras estórias. 1 ed. Global editora. São Paulo, 2019

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem: arquivo pessoal/ VEM comigo!

Santarém, Pá 25 de outubro de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

3 comentários em “Guimarães Rosa

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