Carlos Drummond de Andrade

Ganhei ( perdi) meu dia.

E baixei a coisa fria

também chamada noite, e frio ao frio

em bruma se entrelaça, num suspiro.

E me pergunto e me respiro

na fuga deste dia que era mil

para mim que esperava

os grandes sóis violentos, me sentia

tão rico deste dia

e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera

bem antes sua vaga pedraria?

Mas quando me perdi, se estou perdido

antes de haver nascido

e me nasci votado à perda

de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.

De tantas perdas uma clara via

por certo se abriria

de mim a mim, estrela fria.

As árvores lá fora se meditam.

O inverno é quente em mim, que o estou berçando,

e em mim vai derretendo

este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos

ao ouvindo de alguém sem rosto e sem justiça

ao ouvido do muro,

ao liso ouvido grotejante

de uma piscina que sabe o tempo, e fia

seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher

ao cofre de fantasmas, que a notícia

de perdidas lá não chegue nem açule

os olhos policiais do amor-vigia.

Não me procurem que me perdi eu mesmo

como os homens se matam, e as enguias

à loca se recolhem, na água fria…”

Carlos Drummond de Andrade. Elegia. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1990

Marii Freire Pereira

https://pensamentos.me/ VEM comigo!

Imagem: arquivo pessoal

Santarém, Pá 6 de setembro de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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