Por que este nome, ao sol? Tudo escurece
de súbito na casa. Estou sem olhos.
Aqui decerto guardam- se guardados
sem forma, sem sentido. É quarto feio
pensadamente para me intrigar.
O que nele se põe assume outra matéria
e nunca mais regressa ao que era antes.
Eu mesmo, se transponho
o umbral enigmático,
fico outro ser, de mim desconhecido.
Sou coisa inanimada, bicho preso
em jaula de esquecer, que se afastou
de movimento e fome. Esta pesada
cobertura de sombra nega o tato,
o olfato, o ouvido. Exalo-me. Enoiteço.
O quarto escuro em mim habita. Sou o quarto escuro. Sem lucarna.
Sem óculos. Os antigos
condenam- me a esta forma de castigo.
Carlos Drummond de Andrade. Quarto Escuro. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1990
Marii Freire Pereira
Imagem: Pinterest. Perìgeion
Santarém, Pá 17 de agosto de 2020

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