Clarice Lispector

Quando penso na alegria voraz

com que comemos galinha ao molho pardo

dou- me conta de nossa truculência.

Eu, que seria capaz de matar uma galinha,

tanto gosto delas vivas

mexendo o pescoço feio

e procurando minhocas.

Deveríamos não com elas e ao seu sangue?

Nunca.

Nós somos canibais,

é preciso não esquecer.

E respeitar a violência que temos.

E, quem sabe, não comêssemos a

galinha ao molho pardo,

comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha

e no entanto comê-la morta

me confunde, espanta- me,

mas aceito.

A nossa vida é truculenta:

nasce- se com sangue

e com sangue corta- se a união

que é o cordão umbilical.

E quantas morrem com sangue.

É preciso acreditar no sangue

como parte de nossa vida.

A truculência.

É amor também.

Clarice Lispector. Nossa Truculência

https://www.escritas.org

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Imagem: Pinterest. gulbenkian.mediadepo.net

Santarém, Pá 12 de Julho de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

2 comentários em “Clarice Lispector

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