Se diz a palco seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante,
o cante sem mais nada;
se diz a palco seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.
[…]
A palco seco existem
situação e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.
Eis uns poucos exemplos
de ser a palco seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.
João Cabral de Melo Neto. ” A palco seco”.
(Poesias completas. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. p. 160- 5)
VEM comigo!
Marii Freire Pereira
Imagem: Vertical guitarra (s/d), de Jonh Woodcok.
Arquivo pessoal
Santarém, Pá 24 de junho de 2020

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