Casimiro de Abreu

Eu tenho uns amores – quem é que os não

[ tinha

Nos tempos antigos? – Amar não faz mal;

As almas que sentem paixão como a minha,

Que digam, que falem em regra geral.

_ A flor dos meus sonhos é moça bonita

Qual flor entre’aberta do dia ao raiar;

Mas onde ela mora, que casa ela habita,

Não quero, não posso, não devo contar!

………………………………………………………….

Oh! ontem no baile com ela valsando

Senti as delícias dos anjos do céu!

Na dança ligeira qual silfo voando

Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!

_ Que noite e que baile! _ Seu hábito

[ virgem

Queimava- me assustava faces no louco valsar,

As falas sentidas, que os olhos falavam,

Não quero, não posso, não devo contar!

Depois indolente firmou-se em meu braço,

Fugimos das salas, do mundo talvez!

Inda era mais bela rendida ao cansaço,

Morrendo de amores em tal languidez!

_ Que noite e que festa! e que lânguido rosto

Banhado ao reflexo do branco luar!

A neve do colo e das ondas dos seios

Não quero, não posso, não devo contar!

………………………………………………………….

_ Agora eu vos juro… Palavra!! – não minto!

Ouvi a Formosa também suspirar;

Os doces suspiros, que os ecos ouviram,

Não quero, não posso, não devo contar!

Então nesse instante nas águas do rio

Passava uma barca, e bom remador

Cantava na flauta: – ” Mas noites d’estio

O céu tem estrelas, o amor tem amor!”

E a voz maviosa do bom gondoeiro

Repete cantando: – ” viver é amar!”

Se os peitos respondem à voz do barqueiro…

Não quero, não posso, não devo contar!

Trememos de medo…a boca emudece

Mas sentem- se os pulsos do meu coração!

Seu seio nevado de amor se intumesce

E os lábios se tocam no ardor da paixão!

_ Depois…Mas já vejo que vós, meus

[ senhores,

Com fina malícia quereis me enganar;

Aqui faço ponto; – segredos de amores

Não quero, não posso, não devo contar!

Casimiro de Abreu. Segredos ( poesia completas de Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.p 61- 3.)

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar. Atual. 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Madonna della salute: Joseph Mallord Willian Turner. Venice. 1835. Metropolitan Museum of Art.New York .

Santarém, Pá 23 de junho de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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