Mário de Andrade

Nós íamos calados pela rua.

E o calor dos rosais nos salientava tanto

Que um desejo de exemplo me inspirava,

E você me aceitou por entre os santos.

Erguer do chão um toco de cigarro,

Dumá- lo sem saber por que boca passou,

A terra me erriçava a língua e uma saliva seca

Poisando nos meus lábios molhados renasceu.

Todos os bois boitatás queimavam minha boca

Mas quando recomecei a olhar ôh, minha doce amiga,

Os operários passavam- se todos para o meu lado,

Todos com flores roubadas na abertura da camisa…

O Sol no poente, de novo auroral é nativo,

Fazia em caminho contrário um dia novo;

E as noites ficaram luminosamente diurnas,

E os dias massacrados e se esconderam no covão duma noite

[ sem fim…”

Mário de Andrade. Poema da Amiga VI. Nova Cultural. São Paulo, 1990

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest. Me apaixonei.com.br

Santarém, Pá 11 de junho de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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