” Dorme, que a tarde é finda e a noite vem.
Dorme que as pálpebras do mundo incerto
Baixam solenes, com a formação que têm,
Sobre o mortiço olhar inda desperto.
Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo,
Quererias viver eternamente,
Ficção eterna ante esse espaço mudo
Que é um vácuo azul? Dorme, nada sente
Nem paira mais no ar, que fora almo
Senão for a nossa alma erma e vazia,
Que o nosso fado, vento frito e calmo
E a tarde se nós mesmos, baça e fria
Como longínquo sopro altivo e humano
Essa tarde monótona e serena
Em que, ao morrer o imperador romano
Disse: Fui tudo, nada vale a pena”.
Nova Poesia Inédita. Fernando Pessoa ( Direção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabinópolis e Almeida Maria Monteiro Sereno) Lisboa: Ática, 1973 ( 4 ed. 1993) – 125

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