Autoabandono

Há pessoas que cuidam muito bem dos outros, menos de si. Talvez, por não estarem preparadas, por não saber lidar com os seus limites ou ainda, não reconhecerem que elas mesmas precisam de um cuidado especial, ou seja, o cuidar primeiramente de si. É regra da vida. Eu só posso me doar a alguém se tenho condições para isto, porque do contrário, se faltar-me a estruturanecessária, o resto não funciona. Mas no autoabandono não, ao invés de se cuidar de mim, nego atenção.

O que justifica o autoabandono? O não reconhecimento do seu próprio valor? Será que essas pessoas foram a vida inteira tão machucadas que deixaram de sentir dor? São insensíveis para aquilo que lhes machuca? Todos nós, temos os nossos problemas, mas ser inumano consigo, é uma conduta não solidária. Não é natural dar-se esse tipo de tratamento, pelo contrário. Isso as transforma em carrasco de si mesmas. Ninguém é de ferro, todos nós, em algum momento da vida estaremos diante de situações que nos torna pequenos, tristes, irreconhecíveis talvez. Todavia, é preciso avaliar que nenhum tratamento desumano para consigo é normal. Na verdade, é uma atitude imatura. Se você for avaliar, é uma relação desigual, uma vez que, se é capaz de cuidar do outro, mas negligente ao que escandaliza dentro do seu interior. É a rejeição que tenho a mim mesmo, ou seja, ao juramento do calor que tenho.

O ser humano é muitas vezes, um conjunto de neurose, não porque ele escolhe, é porque é uma característica própria de cada um. Nós somos seres imperfeitos. E a liberdade que se tem em escolher o que entra ou sai da nossa vida, determina muita coisa. Determina inclusive, parte do que somos. É como diz o ditado popular ” errar é humano “. Errar nos deprime, certamente. Mas, o que há de melhor e mais bonito nisso tudo, digo nesse jogo de erros e acertos, é esse olhar especial que temos sobre nós mesmos. É na maioria das vezes, discordar de algo, mas pensar, analisar tudo aquilo que deu origem ao embaraço. Quem não errar? Todos erram basicamente na mesma proporção ou de repente, tem sempre uns indivíduos que se superam. Mas via de regra, a vida recomeça exatamente do ponto que pára. Por que desistir de si? Por que fingir que não dói? Há sempre um choro que se chora por dentro, um lamento que se deixa de fazer por achar que o outro não compreende. Tudo isso se manifesta dentro de nós, não como negar. Inumanos consigo? Por mais difícil que seja uma realidade, sempre é interessante contestar, porque aí sim, se pode trabalhar o que incomoda.

Existem um pensamento dito por Sócrates há mais de 2.500 anos que diz que o ser humano só consegue ser perfeitos quando ele agrega, quando junta força com os demais. Sócrates estava certo. Nós só acertamos quando somamos. Quando divide não. Quando divide só perdemos…sempre. Por isso, devemos aprender a lidar melhor com os nossos problemas, nossas dores, com os nossos conflitos pessoais, porque só assim se pode cuidar do outro e também de nós. Isso é fundamental para cada um.

Marii Freire Pereira

Imagem ” cheiro de lavanda

Santarém, Pá 11 de maio de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

4 comentários em “Autoabandono

  1. É curiosa essa relação de nós com nós mesmos. Às vezes me pego pensando que outras coisas também nos são autoabandono, como por exemplo, a auto cobrança. Me pego muito neste rodeio até que paro e penso: pra quê? Por que ser tão tolerante com os outros e não conseguir ser assim comigo mesmo? Obrigado pela leitura e pela reflexão. Abraços.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu acredito que o ser humano quer respostas, mas respostas claras quando se tratada relação com o outro. Sempre se deseja uma relação equilibrada, ou seja algo de igual valor. E sabemos que dificilmente vamos encontrar isso. Mas, costumamos tolerar porque no fundo temos essa esperança, porque de fato, o ser humano quer a tal das respostas. E se começa naquela coisa de alimentar algo aqui, ali…até que de repente, surge uma fresta. Aí sim, se trabalha a problemática.
      Por outro lado, esse autoabandono é terrível. Pois é mais provável que sejamos bom para o outro, e não para nós. Para nós, muitas vezes somos péssimos.

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