Carlos Drummond de Andrade

” De tudo ficou um pouco.

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da Rosa

ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

( muito pouco).

Pouco ficou deste pó

de quê teu branco sapato

se cobriu. Ficam poucas

roupas, poucos véus rotos

Pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço,

_ vazio _ de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha

De teu áspera silêncio

Um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobram…”

Carlos Drummond de Andrade, Resíduo. A Rosa Do Povo. Círculo do Livro. São Paulo, 1945

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 1 de maio de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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