Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu beijo, morto o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
Que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto- me disperso,
anterior a fronteiras ,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
Que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo, 1940. Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, 2013
VEM comigo!
Marii Freire Pereira
Santarém, Pá 11 de abril 2020

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