João Cabral de Melo Neto

” No fim de um mundo melancólico

os homens lêem jornais

Homens indiferentes a comer laranjas

que ardem como o Sol…”

João Cabral de Melo Neto ‘ O fim do mundo)

Imagem: Google

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 2 de abril de 2020

O Amor Antigo

O Amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão negar a sentença.

O Amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulhar no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade.

Textos Selecionados ( Literatura Comentada)

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 2 de abril de 2020

Literatura

O bom poema é aquele que nasce da profundidade, que tem o preparo da palavra para chegar ao deleite e o furor do gozo. Ele tem comover, a ponto de perpassar a realidade.

[…]

O poema tem que desnudar a alma, ir para o lado da fantasia, ali no que diz respeito a provocação mesmo, ou seja, ele tem que provocar o desejo, o encantamento e ao mesmo tempo o desvario de quem o lê . Por isso, que é preciso ter ‘sensibilidade’ para conseguir atrentrar nos seus recintos, digo no que refere-se a pureza, a profundidade do sentimento humano. E quanto mais triste, é que ele nos envolve, porque essa resposta entre a ilusão e a realidade é que dar prazer.

Marii Freire Pereira.

VEM comigo!

Imagem: Google.com

Santarém, 2 de abril de 2020

Lembranças de morrer

Avatar de VEM comigo!Pensamentos.me/VEM comigo!

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito e aça à dor vivente,

Não derramam por nem uma lágrima

Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impurra

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poente caminheiro

– Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,

Onde o fogo insensato a consumia:

Só levo uma saudade – é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – e dessas sombras

Que eu sentia valer nas noites minhas…

De ti, ó minha mãe! Pobre coitada

Que por minha tristeza te definha!

Que meu pai…de meus únicos amigos,

Poucos – bem poucos – e que não zombavam

Quando, em noites…

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Tudo o que dorme é uma criança de novo

A criança quando dorme, não se dá conta da vida, nem do mal que a cerca. Ela dorme e no simples ato de dormir, vive naturalmente o próprio sonho… “

Marii.

A vida por vezes, torna-se egoísta, porque ela mata-nos os sonhos, quando estes, assim como no imaginário infantil, deveria ser sempre real, e não diluir em meio à realidade.

Há quem diga que não devemos ter medo de viver as nossas inquietações, de modo a saber conciliar aquilo que dorme e o que precisa despertar em nós, melhor, saber enfrentar os desafios de modo, a ser autor da própria história, mas sem deixar a criança de lado. Ora, imagino que seja algo parecido com uma cena, onde você oferece a criança, a oportunidade de pintar um quadro com a linda imagem que representa o mar, assim como respeitando a sua particularidade de saber pintar o sol . Pois nessa relação entre as duas formas de perceber a importância da vida, ela aprende a distinguir o essencial, e o complexo. Um dia, será para mergulhar em si mesmo, e no outro, aprender a contemplar a beleza dos dias cheios de vida. Um será de mágoas, ‘das facetas dos sentimentos’ e num segundo olhar, a luz que representa a consciência/razão, ou seja, a raridade dos dias.

[…]

Enquanto pinta, a criança vive a magia dos sonhos. Por que digo isso? Porque quem já teve essa intimidade com pincéis e bisnagas, sabe o que aquele ato significa. O simples movimento entre traços e cores, é uma forma de nos fazer sonhar…Mas, acordados! Porque a melhor forma de sonhar, é criando mecanismos que favoreça a realização desses sonhos.

Eu já vivi essa rica experiência, e sei que entre as cores mais fortes/vibrantes, há a denúncia das nossas inquietações. O Munch em sua célebre obra ( O Grito) que o diga. Em suas telas, a presença de cores fortes é o que mais pode ser visto. Todavia, tal exemplo é só para retratar a realidade, porque embora o psíquico possa vislumbrar a sabedoria através do silêncio, no mundo real o silêncio é a nossa mais autêntica forma de gritar, e gritar as contradições insuportáveis. Detalhe, na vida real, é a ausência de cores que prevalece.

Todavia, cabe a nós mesmos, procurar encontrar essa linha tênue da vida, essa cor que falta para que tudo possa fazer sentido novamente.

Deve ser por isso que ” tudo o que dorme é novo”, é porque o descanso acomoda a consciência, ela é a ultima fronteira do ser humano. Talvez o sono, seja menos egoísta do que a realidade. É como disse Pessoa:” Entre matar quem dorme e matar uma criança não há diferença “.

” matar os sonhos, é matar-nos”.

Fernando Pessoa.

Marii Freire Pereira

Imagem particular.

Santarém, Pá 2 abril de 2020

Guimarães Rosa

” Fui aprendendo a achar graça no desassossego.

Aprendi a medir a noite em dedos.

Achei que qualquer hora eu podia ter coragem “.

Guimarães Rosa, In grande Sertão Veredas.

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 2 de abril de 2020

Bel-prazer

O bel-prazer é algo que o tempo não perdoa. Você viver a experiência da mudança da forma que quiser, mas se deixar de ter a sensibilidade de reconhecer que foi negligente com o mínimo possível, aquela ‘ batidinha educada ‘ na porta chega trazendo-lhe a fatura. São os ditames da vida, aliás as normas da vida, assim como os os homens têm uma norma escrita, a vida também nos desperta essa consciência de termos regras que naturalmente surgem a medida que fazemos uso da razão. E isso tem que ser assim, tem que seguir, ou seja, seguir o compasso natural de tudo. Lógico que, aquele que se ama, procurar cuidar de si mesmo, assim como das pessoas que tem algum tipo de afeição, de afeto, de amor e respeito.

Se tem uma coisa que a vida é generosa conosco, é saber nos desistalar das nossas certezas. É impressionante, mas essas descem entre os dedos como grão de areia. Você já notou que isso funciona como um filtro? Muita coisa escapa, só fica concentrado uma pequena porção, que se você ficar com a mão aberta, dependendo da força do vento, ele a leva. A vida é assim, quando não aprisiona, esmaga, e quando não esmaga, o vento leva embora.

‘ Ah! Mas…eu….’. Pois é, de fato, é preciso muita sensibilidade do ser humano para aprender a refletir a vida, mas refletir no sentido de observar a interiorização, claro. Estou falando dos pontos frágeis. É essa observação, essa análise que faz com que a gente possa enxergar a si mesmo, dentro desse labirinto que a vida. E exige respostas com precisão o tempo todo.

Sensibilidade, essa palavra carrega consigo um significado íntimo, bonito, e ao mesmo tempo tão precioso, que rara são as vezes que, somos surpreendidos por pessoas que são capazes de fazer aflorar um conjunto de sentimentos, e que nos conduz a ela. É a vida dando aquela chacoalhada necessária. Certamente, isso é para ficar só o que é valioso [ necessário] naquele momento.

[…]

A capacidade de despertar, é fruto da consciência, essa é uma qualidade que nem todo mundo tem. As vezes é mais fácil ensinar os a ser rei de si mesmo, do que ser súdito. É mais fácil ter controle da situação, porque tendo controle, sou capaz de conduzi-la. Ledo engano! O grande encontro de si mesmo, é quando nós achamos.

[…]

Não basta ceder as vontades da vida, é preciso observância.

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 2 abril de 2020

Pela luz dos Olhos Teus

Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos Teus

Resolvem se encontrar,

Ai que bom que isso é meu Deus,

Que frio que me dá o encontro desse olhar.

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só pra me provocar,

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar.

Meu amor, juro por Deus,

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar,

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará- lará…”

Miúcha. (Tom Jobim e Miúcha)

Compositores: Vinicius de Moraes

Fonte: Musixmatch

Imagem: Miúcha – Veja.abril.com.br

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Santarém, Pá 1 de abril de 2020

Sobre um mar de rosas que arde

Sobre um mar de rosas que arde

Em ondas fulvas, distante,

Erram meus olhos, diamante,

Como as asas dentro da tarde.

Asas no azul, melodias,

E as horas são velas fluidas

Da nau em que, oh! alma, descuidas

Das esperanças tardias.

( Pedro Kilkerry. In: Ítalo Moricone. Os cem melho poemas brasileiros do século. São Paulo: Objetiva)

Imagem: Os barcos (1874), de Claude Monet. Musée d’Osay, Paris, França.

Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, ano: 2013

VEM comigo!

Marii Freire Pereira.

Santarém, Pá 1 de abril de 2020

Ninho

Nós temos a clara compreensão do que expressar essa realidade, melhor, digo essa imagem. É um ninho construído por aves para servir de abrigo aos filhotes. É um pequeno ” berço ” que serve para envolvê-lo e assim, trazer- lhes segurança. Mas, a minha reflexão aqui é, qual é o sentido do ” ninho ” para nós? Casa, lugar seguro, onde a priori, estou livre da maldade que me cerca.

Você pode fazer essa leitura independente, da maneira de como falo, basta olhar a estrutura, e compreender a questão das linhas geométricas, da forma em que é traçado. É um círculo, representa um elo que faz todo sentido no que refere-se a proteção. É aquilo que faz-nos lembrar do primeiro lugar da nossa existência, a barriga de nossa mãe, onde o formato é arredondado. Note que, enquanto estamos lá, recebemos todo carinho, toda proteção. Mas, a partir do momento que estamos aqui, digo, quando temos autonomia, não dependendo mais de um útero para nós desenvolver, então a responsabilidade passa a ser totalmente nossa. É portanto, nosso, o direto de construir as paredes que que nos revestem como pessoas, ou seja, aquilo que tem o efeito de proteção para impedir que a realidade que nos cerca, seja drástica demais para conosco.

É interessante vermos, como são aqueles que por um gesto de imaturidade, tiram de si, essa proteção. Simplesmente, agem de maneira irresponsável, ferindo a si próprio, porque não sabe lidar com os desafios diários, com os problemas, as perdas ou porque quer tudo na hora. São pessoas difíceis de lidar, porque no fundo, também nos fere. Aliás, a dor e o sofrimento são parceiros inseparáveis. Geralmente, fazem muitas vitimas. Quem derá que, não fossemos atingidos, tanto quanto, aqueles que administram de forma deplorável os seus conflitos. Querendo ou não, acabamos sendo atingidos.

O ninho também, acaba tendo essa função, que é reter o excremento, ou seja, parte daquilo que não tem mais função para o corpo. O problema, que todos que estão ali, vivendo no mesmo calor (…), naturalmente, sem pretensão alguma, é atingido. Como se costuma dizer, essa é a parte ruim da história. Difícil é não se deixar envolver por ela, porque não escolha sua, é a inobservância do outro que lhe atinge de forma direta.

Uma que gosto muito de observar, é que o ser humano, às vezes, leva tempo para ser perceptível no que se refere a compreender a sua própria realidade. Muitos querem que tudo venha pronto. Que a felicidade venha pronta, que o trabalho dos sonhos, o carro, a viagem tão esperada ‘caia do céu‘. Quanfo não. Felicidade, custa caro. Tudo isso, é uma via de acesso para a construção desse conceito. O problema é que muitos não chegam a ele de maneira concreta.

[…]

Há quem prefira uma vida ” idealizada”, no máximo, é isso. Ele não quer viver os desafios de criar algo para si, ou seja, Ele quer o ninho, o conforto, a proteção, a liberdade que tudo isso representa, mas não quer ter compromisso com um graveto para ajudar a tecer, esse lugar que é importante osra ele próprio. Não é possível. Infelizmente temos que compreender que a liberdade é uma conquista paulatina. Sem essa ” segurança”, eu não posso alcançar vôo para lugares distantes. E por que? Porque o conceito de emancipação, que é aquilo que me permite tomar decisões quanto as minhas escolhas. Se sei agir de maneira correta diante dos desafios, logo sou capaz de administrar bem a própria vida.

Acredito que a dificuldade da mudança, ela sempre representa algo positivo para grande parte de nós, todo ser humano, ele é reeducado quando sofre as restrições da vida. Claro, como mencionado no texto, não são todos que desenvolve essa habilidade, porém, só é possível reiventar os sonhos e esperança, quando temos coragem de enfrentar a realidade com a maturidade que ela precisa. Se agirmos de outra maneira, nunca seremos pessoas independentes, vamos sempre querer o conforto do ninho que alguém se esforçou muito para construir no primeiro momento para nós, mas a partir do momento que somos pássaros adultos, cabe a nós…construir um ambiente que nos seja favorável. A função de por o graveto é minha e sua. É preciso que saibamos seguir a própria vida.

Marii Freire Pereira.

Imagem: via Facebook

Santarém, Pá 1 de abril de 2020