Os manequins

Os sonhos cobrem-se de pós. Um último esforço de concentração morre no meu peito de homem enforcado. Tenho no meu quarto manequins concundas onde me reproduzo e me contemplo em silêncio. João Cabral de Melo Neto.

Quando nasci, um anjo torto Desses que vivem na sombra Disse: vai, Carlos! Ser gauche na vida. As casas espiam os homens Que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passe cheio de pernas: Pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus [ pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás.dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução Mundo mundo vasto mundo mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Poema de sete faces (Drummond)

(…) é preciso partir é preciso chegar é preciso partir é preciso chegar… Ah, como esta vida é urgente! … no entanto eu gostava mesmo era de partir… e – até hoje – quando acaso embarco para alguma parte acomodo-me no meu lugar fecho os olhos e sonho: viajar, viajar mas para parte nenhuma… viajar indefinidamente… como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

MARIO QUINTANA.