[…]
Nem era dor aquilo que doía
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor sabe dor, e não se extingue?
( Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha. )
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do Sul, e, quatro, aos quatros ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quando mais fugi
do que enfim capiturei, não mais visando
aos alvos imortais”.
Carlos Drummond de Andrade. Nudez ( A Vida Passando a limpo). Literatura Comentada. Textos publicados sob licença de Pedro Augusto Graña Drummond. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1990
Marii Freire Pereira
https://pensamentos.me/ VEM comigo!
Imagem: Pinterest. Johanner Hulsch
Santarém, Pá 10 de abril de 2021

❤️
CurtirCurtido por 1 pessoa
🍀
CurtirCurtir
❤🌼
CurtirCurtido por 1 pessoa