Enquanto o mundo for mundo
Enquanto o sol for compra- e- venda
Enquanto a vida vier com injeção de éter
Enquanto o poeta tiver
Vetiver cabeça tronco e membro
Os milagres farão chuvas de astros nos sonhos
O amor há de ser tudo é a carícia dos pratos
Além de alimentos despertará prazer…
Chorar é bom, rir bim, raiva é bão pão pão
Mas im miu pátio as núvoas duas absentos
Não poderão tirar mais dulçuras de mulatras
Nem o suave gimir das brises no caqueiral. Torpe é a cidade. Um desejo sombrio de estupro
Um desejo de destruir tudo num grito.
Num grito não num gruto
E dar um beijo em cada mão de quem trabalha…
E si o Falano for maneta?
Ora brinque-se senhor adevogado
Diga adeus e vá pro Diabo que o carregue
Que eu também já vou saindo
Pro galo poder cantar.
Mário de Andrade. O carro da Miséria, XIII. Ed. Nova Cultural. São Paulo, 1990
VEM comigo!
Marii Freire Pereira
Imagem: Pinterest.
Santarém, Pá 8 de junho de 2020

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