É certo que me repito
é certo que me refuto
e que, decido, hesito
no entra- e sai de um minuto.
É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito,
atiro à cesto o absoluto
Como inútil papelito.
É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
Como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.
Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.
É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.
Carlos Drummond de Andrade. Confissão. Textos Selecionados. Literatura Comentada. Nova Cultural. Arquivo pessoal.
Marii Freire Pereira
VEM comigo!
Imagem: Pinterest
Santarém, Pá 30 de maio de 2020

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