Carlos Drummond de Andrade

” Não rimarei a palavra sono

Com a incorrespondente palavra outono.

Rimarei com palavra carne

ou qualquer outra, que todas me convêm.

As palavras não nascem amarradas,

Elas saltam, se beijam, se dissolvem,

no céu livre por vezes um desenho,

são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Um pedra no meio do caminho

ou apenas um rastro, não importa.

Estes poetas são meus. De todo o orgulho,

de toda a precisão se incorporaram

ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinícius

sua mais limpida elegia. Bebo em Murilo.

Que Neruda me dê sua gravata

chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.

São todos meus irmãos, não são jornais

nem deslizar de lancha entre camélias:

é todo a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra

e é ainda mais do que ela. É qualquer homem

ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna

em qualquer estalagem, se ainda as há.

_ Há mortos? há mercados? há doenças?

É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,

por que falsa mesquinhez me gastaria?

Que se depositem os beijos na face branca, nas principais

[ rugas.

O beijo ainda é um sinal, pedido embora,

Santarém ausência de comércio,

boiando em tempo sujos.

Poeta do finito e da matéria,

cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,

boca tão seca, mas ardor tão casto…”

Carlos Drummond de Andrade. Consideração do poema. A Rosa Do Povo, Círculo do Livro. São Paulo, 1945

VEM comigo!

Marii Freire Pereira

Imagem: Pinterest

Santarém, Pá 24 de maio de 2020

Publicado por VEM comigo!

⚖️ Bacharela em direito, Pós - graduada em Direito Penal e Processo Penal. 📚 Autora: MULHER Do ostracismo à luta pelos direitos nos dias atuais e O Amor Verdadeiro Contesta. Ambas as obras são lançadas em parceria com a Editora Viseu/ Brasil. . Palestrante