” Não rimarei a palavra sono
Com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
Elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Um pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinícius
sua mais limpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é todo a minha vida que joguei.
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
_ Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me gastaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principais
[ rugas.
O beijo ainda é um sinal, pedido embora,
Santarém ausência de comércio,
boiando em tempo sujos.
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto…”
Carlos Drummond de Andrade. Consideração do poema. A Rosa Do Povo, Círculo do Livro. São Paulo, 1945
VEM comigo!
Marii Freire Pereira
Imagem: Pinterest
Santarém, Pá 24 de maio de 2020

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