Quando, pesado e baixo, o céu como tampa
Sobre a alma solucante, assolada aos açoites,
E que deste horizonte, a cercar toda a tampa
Despeja- nos um dia triste que as noites;
Quando se transformou a Terra em masmorra úmida,
Por onde essa esperança, assim como um morcego
Vai tangendo paredes ante uma asa túmida
Batendo a testa em tetos podres, sem apego;
Quando a chuva estirou os seus longos filmes
Como as grades de ferro em uma ampla cadeia,
E um povoado mudo de aranhas infames
Até os nossos cérebros estende as teias,
Súbito, os sinos saltam com ferocidade
E atiram para o céu um grande gemido fremente,
Tal aquelas errantes almas sem vida de
Que ficam lamentando- se obstinadamente.
_ E féretros sem fim, sem tambor ou pavana,
Lentos desfilam dentro em mim; e a Esperança,
Vencida, Chora, a Angústia, feroz e tirana.
A negra flâmula em meu curvo crânio lança.
Charles Baudelaire. SPleen _ LXXVII ( In: José Lino Grünewald, org. e trad. Poetas Frances do século XIX. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1991
Marii Freire Pereira
VEM comigo!
Santarém, Pá 11 de 2020