Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a amanhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que planta livre de armação.
A amanhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto, Tecendo a manhã ( A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara) Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, 2013
VEM comigo!
Marii Freire Pereira
Santarém, Pá 17 de abril de 2020