Boa noite, Maria! Eu vou embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde…é tarde…
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa noite!…E tu dizes – Boa noite,
Mas não mo digas assim por entre beijos…
Mas não mo digas descobrindo o peito,
-Mar de amor onde vagam meus desejos.
Julieta do céu! Ouve …a calhandra
Já rumoreja o canto da matina
Tu dizes que eu menti?…pois foi mentira…
…Quem cantou foi teu hálito, divina!
Se a estrela d’alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto…”
É noite ainda! Brilha na Cambraia
–Desmanchando o roupão, a espádua nua
–O globo do teu peito entre os arminhos
Com entre as névoas se balouça a lua…
É noite, pois! Formamos, Julieta!
Rescende a alcova ao resvalar das flores,
Fechamos sobre nós estas cortinas…
São as asas do arcanjo dos amores.
A frouxa luz da alabrastina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos…
Oh! Deixa-me aquecer os teus pés divinos
Ao doudo afaga de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus
[ beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a carabina do delírio,
Ri, suspira,soluça, anseia e chora…
Marion!Marion!…É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!…
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo…
E deixa-me dormir balbuciando…
Boa noite! – Formosa Consuelo!…
(Castro Alves. Espumas flutuantes, Rio de Janeiro)
Literatura brasileira: William Cereja e Thereza Cochar, ano: 2013
Imagem- A grande odalisca ( 1814), de Jean Auguste- Dominique Ingres.
Publicado por: VEM comigo!
Marii Freire Pereira
Santarém, Pá 18 de março de 2020

Você precisa fazer login para comentar.