Mario de Andrade

Nós íamos calados pela rua.

E o calor dos rosais dos salientava tanto

Que um desejo de exemplo me inspirava,

E você me aceitou por entre os santos.

Erguer do chão um toco de cigarro,

Fumá-lo sem saber por que boca passou,

A terra me erriçava a língua e uma saliva seca

Poisando nos meus lábios molhados renasceu.

Todos os boitatás queimavam minha boca

Mas quando reconheci a olhar, ôh minha doce amiga,

Os operários passavam- se todos para o meu lado,

Todos com flores roubadas na abertura da camisa…

O Sol no poente, de novo auroral e nativo,

Fazia em caminho, contrário um dia novo;

E às noites ficaram luminosamente diurnas,

E os dias massacrados se esconderam no covão duma noite

[ sem fim.

Mário de Andrade, Poemas da Amiga VI ( Textos Selecionados, Editora Nova Cultural. São Paulo, 1990

Marii Freire Pereira

VEM comigo!

Santarém, Pá 7 de maio de 2020

Publicado por VEM comigo!

Bacharel em direito, cursando Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

2 comentários em “Mario de Andrade

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